Agricultor

O casal sempre cobrava a presença que ora se concretiza. Vê se aparece, diziam seguidas vezes. Eu assegurava a intenção, mas ficava na promessa.
Queriam celebrar amizade antiga, exibir a nova mansão, partilhar as alegrias conjugais.

Enfim deu certo, ao que parece um pouco tarde.
Cheguei na hora, imprópria.

Ainda na rua, ouvi a discussão, gritos raivosos. Isto é briga? Quem? Quem?
Eram eles batendo boca.

Ele saiu agitado, a tempo de avisar, quando eu ia acionar a campainha:

– Não funciona.

A esposa segue berrando lá dentro, revelando a razão da encrenca: mancha de terra na roupa dele. Desabafou inconformada:

– Que mania! Todo santo dia a mesma coisa

Ao me ver, ele desandou falar também:

– Quem mandou casar com agricultor? Poderia ter escolhido melhor, um professor por exemplo, desses que ficam só no limpinho, esperando o alimento que produzo no barro sujo cair temperadinho na mesa forrada em toalha branca.

Lascou, pensei. Demorei tanto, o atrativo sumiu. E pior, entro de gaiato no olho do furacão.

Em silêncio, condenei os dois. Qual é a dela, ele sempre atuou na lavoura. Ou será que descobriu alguma nódoa indelével, e canaliza a discórdia numa recorrente mancha de argila? Ele também exagerou, atacando com sarcasmo uma profissão tão nobre.
Seguiu insinuando, graças ao borrão do solo fértil, ela gozava a vida que um mísero assalariado jamais teria como bancar. Disparou o “mísero assalariado”, me apontando o dedo. Ela agride e eu que levo?

Ele questionou, gritando ainda:

– Cabeça oca que tenho, como aceitei casar?

Ela ouviu e retrucou:

– Não confunda profissão com porquice, nem escolha com renúncia.

Será que a perspectiva da visita aflorou cicatrizes mal curadas?

O certo a fazer seria escapar de fininho, mas acabei plantado vendo o circo pegar fogo.

Quando ela se projetou por trás da cortina, soltei a frase no impulso:

– Adoro as mulheres, não consigo viver sozinho.

Limpei a barra com ela, chamei ele de lado.

Antes do desfecho final deste barraco, vou lhe dizer uma coisa: um homem precisa se mostrar solidário, mesmo quando recebe alfinetada maldosa. Então naquele dia eu finalizei baixinho, torcendo que ela não escutasse:

– Não esquente, não fosse o lodo grudento, mais dia menos dia ela implicaria feio contigo por outra bobagem qualquer.

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https://pixabay.com/pt/photos/rural-colheita-agricultura-fazenda-2326787/

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