Atacado

Estava quieto esborrachado na poltrona, ele que chegou falando. Sustentou espontaneamente, ia adquirir meu novo livro, quando saísse o pagamento. Fingindo interesse, perguntou:

– Qual é mesmo o título?

Vai comprar coisa nenhuma, pensei. Há um abismo entre o falar e o fazer deste homem. Ainda assim, decidi entrar no jogo dele:

– Para compensar empenhos não honrados, compre no atacado desta vez.

Dissimulado, se deu ao trabalho de fingir que matutava a proposta, por fim desconversou:

– E o que farei com tanto livro?

– Dê aos parentes, aos pobres, para quem você quiser.

Como era de se esperar, roeu a corda:

– Pobre quer comida, não livro.

Dei por mim já estava em pé, e no impulso ataquei o argumento do amigo com todo o fervor possível. Sim, estou falando de um amigo. Muquirana, porém amigo. Lá vai o que ele ouviu de mim:

– Se lessem bons livros não seriam pobres!

Sem que eu percebesse, mais alguém ouviu nossa conversa. Atravessou:

– A complexidade desta dicotomia sobre as urgências do corpo e a fome intangível do espírito não se esgota numa frase tão simplista.

Evitei o novo foco de discórdia, tentando em vão vender livro em quantidade:

– Você ouviu, há no mundo apetites diferentes. Por que não saciar a quem tem fome, e espalhar a arte aos de barriga cheia?

Disse por dizer, sabia perfeitamente o que não seria feito.

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