Aventura Radical

Era um passeio convencional pela região de Hakone, mas houve uma guinada no roteiro.
O trem soltou a gente na estação da cidade lá em baixo, tomamos um ônibus até meia altura da serra, então seguimos de barco singrando águas profundas de um lago vulcânico, depois, mais baldeação, agora de teleféricos, sempre subindo, até chegar no destino final do passeio.

Inverno rigoroso.

Imagine, ao nível do mar o frio já era de lascar, quem dirá em grande altitude.
Calor, só do vulcão ativo, fumegando enxofre. Mau cheiro insuportável. Melhor se o ar gelado soprasse o gás fedido para longe.

Decidi me afastar do bafo contaminado, contemplar do outro lado algo mais agradável, o imponente monte Fuji. Escorrendo neve.

Um alerta: em viagem se comporte, não vá se expor a doidice igual a esta. Pois bem, o descaminho se iniciou com a presença daquela guia. Distraído, só vi quando falou:
– Seu gorro está torto.

Enquanto ajeitava meu capuz, partilhou segredo:

– Existe um ditado aqui no Japão, comparando dois tipos de tolos. Aquele que nunca esteve no Monte Fuji e quem foi duas vezes no Monte Fuji.

Sugeri:

– Daria para chegar mais perto?
– No verão sim.
– No inverno é proibido?
– Precisaria proibir? Quem seria louco?

Sem nenhuma pretensão de ser levado a sério, joguei a conversa de trocar o almoço generoso e a espera no conforto climatizado da loja, gastando dinheiro em lembrancinhas até a hora do retorno, pela aventura na montanha congelada.

Justifiquei:

– Não quero voltar para casa com esta má fama de tolo.

Para absoluta surpresa ela topou, condicionando:

– Óculos de sol você trouxe, tem também segunda pele?

Veja a importância de sair prevenido.

Lá fomos nós morro acima.

Quando o branco dominou, ela disse:

– Ultrapassamos a linha do gelo: daqui para a frente terá que ser caminhando, se quiser subir um pouco mais.

Afoito, desembarquei apressado, o vento uivava. O fôlego quente congelou na hora, voltando em forma de pedrinha sólida castigando o rosto. Um instante e nada mais senti, a face exposta enrijeceu completamente.

Uma faixa de tempo limpo, ao longe avistei o azul do Pacífico se misturando ao céu. Ao puxar a câmera, imaginei a fala: eis me aqui próximo ao topo do Monte Fuji, de onde dá para ver Tóquio a cem quilômetros de distância.

Enquanto me debatia tentando ligar o equipamento, luva grossa, botão pequeno, o clima virou subitamente. Tão rápido, que não assuntei o perigo traiçoeiro. Ao afastar os braços para iniciar a gravação, ela se jogou contra mim me abraçando firme pelo pescoço, as pernas se agarrando ao meu quadril.

O vento soprou a névoa encobrindo a gente.

Tudo bem que era magra e eu gordo além do peso, ainda assim pelo embalo, acredito que seria lançado para trás, mas a poderosa força contrária do vento se neutralizou na ousada iniciativa de me salvar do pior.

Senti o respirar quente dela se misturando ao meu. Como o nevoeiro encobriu tudo, acreditei na explicação:

– Bobo, por um nada você não é lançado no abismo pelo sopro da rajada.

Comemorei solenemente num silêncio assustado e jubiloso: hei de acreditar no provérbio japonês – tolo não sou mais – e nem serei.

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Fonte da figura

https://www.google.com.br/maps/place/Hakusandake/@35.366579,138.7296359,3a,75y,90t/data=!3m8!1e2!3m6!1sAF1QipMhHHqMNs3Hr3r-YANlbeYNeXdBtLhDKExEbMdn!2e10!3e12!6shttps:%2F%2Flh5.googleusercontent.com%2Fp%2FAF1QipMhHHqMNs3Hr3r-YANlbeYNeXdBtLhDKExEbMdn%3Dw114-h86-k-no!7i4032!8i3024!4m5!3m4!1s0x6019628f787e34cb:0x1858b6905671d834!8m2!3d35.3665857!4d138.7296438

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