Bezinho

Segue uma breve apresentação, incompleta, deixo o nome fora. Um apelido resvalou no início, tive o cuidado em checar, não vingou, só eu me lembrava dele. Na devida hora, saberás o porquê de tanta discrição. No mais, sou pessoa de carne e osso, registrado e batizado. Pelo imperativo do sustento, fiz de tudo um pouco nesta vida, equilibrando-me sempre entre erros e acertos. Quis muito e tive sorte, agradeço inclusive pelo fora dolorido que levei. Pé na bumba machucou, depois trouxe vantagem.

Acumulei ofícios pulando de uma profissão para outra e, por longo tempo, fui um pescador contumaz. Do tipo errante e amador, diferente de quem prefere cardume, sai de casa preparado para trazer atum, tainha ou lambari. A incerteza da pescaria me fascinava, a escuridão da água escondia o ardil da minha própria isca e o peixe enorme que haveria de fisgar. Por fim, certo dia, um episódio levou embora o resto do entusiasmo, outrora grande. Quando, finalmente, vi o peixe imenso, até então apenas imaginado, meu desejo definhou.

Fora isso, eu continuei calculista e meticuloso, esmiuçando intenções, mesmo depois da descoberta de que nada neste mundo supera a força indestrutível do acaso.

Resolvi dar uma de escritor, antes do peixão se revelar para mim, como a dizer, lá de dentro da água: tire seu cavalinho da chuva, não vai me arrancar daqui com este seu velho truque manjado. Decisão de escrever não foi pelo dinheiro, ainda bem – nem por uma suposta imortalidade que ouvi dizer, os escritores perseguem. Queria paz, não estavam permitindo, pediam prova os desaforados. Como foto? Já não disse que escapou do anzol? Até aí tudo bem, o carimbo de pescador pegou valendo, mancha ruim não apaga assim. O problema era contabilizarem tudo no recanto da mentira, mesmo quando a história não envolvia peixe. Vamos encolher pela metade a dimensão dessa façanha? Parei de contar caso, agora escrevo. Quanto aos peixes, valho-me da peixaria.

Logo as deficiências da nova ocupação se revelaram, outra vez mais encontrei a sorte, lendo a bíblia. Se até Deus, segundo a tradição judaica, precisou de barro e osso pra gerar um casal de inocentes, como eu do nada iria criar alguém com a complexidade existencial dos nossos dias, com tanto medo e tanta culpa? Então bolei um truque alternativo, passei a me apropriar de experiências reais, de mim mesmo e de terceiros, narrando fatos disfarçados de ficção. Aos poucos, fui me soltando, inserindo pitadas de fantasia e, quando vi, já era capaz de conceber um causo inteiro. Evoluí na arte, agora invento pessoas. Meus leitores, admirados, questionam se as histórias são de verdade ou pura imaginação.

Escolha acertada essa de escrever, de mentiroso nunca mais fui tachado.

Até onde deu, escondi meus pecados, revelando, de propósito, alguma esperteza para não passar a ideia de que sou um tolo completo. Boa leitura, depois, no fim, decida se mereço ou não o pedido singular que faço.

Descubra toda a saga de Bezinho em Profunda Identidade

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