Cooper

Levir chegou trazendo a novidade. Mal cumprimentou, tratou de se gabar:

– Faço cooper.

Nada demais anunciar ocupação, mas na época, movido pela birra, julguei a frase boçal e provocativa. Tanto é que condenei num silêncio venenoso: este gabola bem merece o apelido de Garganta. Então mesmo curioso, não dei o braço a torcer de perguntar o que exatamente ele fazia de tão especial lá nos Estados Unidos. Iniciou, termine.

Continuou a martelar no cooper, sonegando explicação. Era o americano Cooper que tinha inventado o cooper, que ele praticava em Kansas City às margens do rio Missouri. Por que Kansas City? Dizer Kansas não seria o suficiente?

Talvez seja conveniente uma explicação, deu motivos para a minha implicância: sotaque falso. Fica uns dias fora e já vem falando que nem gringo, e pior, misturando idiomas?

Em pouco tempo já apareciam evidências das melhoras alcançadas:
– Veja minha performance, embora o melhor do cooper seja invisível aos olhos.
Performance! Será que já esqueceu o português? E de que adianta tagarelar tanto, se esconde o essencial? Por que não me diz logo de uma vez o que é cooper? Sabe que sou curioso, me atiça a perguntar, pois só de raiva, permanecerei calado como um túmulo. Falastrão como é, daqui a pouco não se aguenta.

Seguiu repetindo o mesmo assunto:

–Mês passado fiz meu cooper direitinho, semana passada fiz meu cooper direitinho, mas esta semana que pena, apesar das férias no Brasil, não sei se consigo executar meu cooper adequate.

Partiu da premissa de que todo mundo era adepto do cooper:

– Em que momento do dia você prefere o cooper?

Desconversei, para mim tanto fazia. Ele estranhou, na América cooper tinha momento certo e duração estabelecida. Dei de ombros. Morro mas não confesso ignorância.
Por sorte, ele se afastou para atender um vizinho chamando na portaria. Flamejando curiosidade, disparei um telefonema, caríssimo, para um amigo em Nova Iorque. Estranhei a resposta.

Como assim, simplesmente correr? Andei sabendo que foi um americano o inventor. Os gregos antigos já não eram bons neste negócio de corrida?

Eram e não eram. Doutor Cooper agregou medições naquilo que existia. Sem monitoramento, correr seria cooper fajuto.

Como eu não sabia disso ainda? Já havia até gozação circulando sobre a mania no Brasil, associando a prática a subentendido malicioso.

Mal desliguei, volta o Garganta feliz da vida:

– Tenho que estar indo, o Pedrão vai me acompanhar no cooper, e que good, daqui ao park é a mesma distância que lá de casa em Kansas City, até onde o Kansas river desagua no Missouri.

E dê-lhe sotaque.

Ataquei maliciosamente, juntando Pedrão e Cooper na mesma empulhação.
Inclusive, a história inicialmente trazia meu repique final, mas a beta reader desaprovou a piadinha forçada. (Bem dizem que a língua é o chicote do rabo, olha eu também misturando idioma).

Então por hoje encerro aqui, antes de Pedrão se iniciar no cooper.

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Fonte da Imagem
https://pixabay.com/pt/photos/corredores-silhuetas-atletas-635906/

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