Delírios Banais

O helicóptero rumava à meia altura, serpenteando os entremontes. Embaixo o abismo íngreme, em cima pico escarpado. Avançava barulhento pelo caminho estreito, fazendo curvas perigosas. Produzia vento, retorcendo a vegetação dos dois lados. A onda de sopro desnudava rochas e ravinas encobertas pelas árvores frondosas.

Se este piloto piscar o olho já era, avaliei.

Uma esbarradinha qualquer, e fim da linha. E se do nada surge uma neblina densa? Meu Deus, não quero nem pensar. Que loucura eu ter comprado este passeio. Fui instigado pelo anúncio provocativo: se não voltar tremendo, não voltou.

Remoendo ansiedade, prometi: da próxima vez, hei de me aventurar pelos falsos perigos dos parques de diversão. Assustam de verdade, mas lá o risco é de mentira, sem chance de morrer.

Como pude entrar de cabeça nesta viagem tão maluca?

Outros turistas externavam admiração, “oh! que paisagem linda”, nada de medo. São mesmo destemidos, dissimulados ou desconhecem as leis da física?

De repente, o prédio.

Edifício enorme, em linha com o plano do nosso voo, enterrado na selva. Plantado na terra certamente, embora a floresta densa escondesse a base. Uma janela descuidada permitiu o estrago grande, papel e pano arrastado em turbilhão para longe. Que prejuízo.

Como justificar uma obra em terreno tão impróprio, prédio em pleno matagal? As pessoas demandam teto, num país populoso, talvez só restou esta opção, distante e improvável.

Fachada moderna e suave, de alvenaria e vidro, diferente dos templos singulares daquela região do mundo, objetivo da excursão. Fui de encontro ao exótico, do choque cultural, e a novidade se revela no trivial, de estranho, a localização, no meio do mato bruto. Concentrado na construção emblemática, esqueci das ameaças do trajeto.

Como chegam e saem dele? Topografia tão abrupta e ladeirenta, não permitiria uma estrada. Um elevador talvez transportasse as pessoas até lá embaixo na grota funda, onde uma condução talvez fosse viável. Ora, deve haver uma trilha escondida numa inclinação favorável para automóvel.

Que tipo de gente mora assim tão afastado? Minha mente maliciosa trabalhou: quem sabe seja um refúgio para amores proibidos.

Entreguei-me de tal forma em analisar o imóvel, que tudo escureceu à minha volta.

Bem conservado. A janela escancarada foi descuido momentâneo, não se trata de abandono. Grande deste jeito, deve abrigar muita gente. Provavelmente nem se conheçam, quem teria tempo para tantos vizinhos? Não falo daquele conhecer de vista, das reuniões tensas do condomínio.

Senti um leve tranco e um susto breve. Percebi, a aeronave aterrissava no chão firme. Os companheiros de infortúnio, agradecidos pelo pouso em segurança, soltaram murmúrios de alívio. Então verifiquei, tiritavam de medo, brancos como o leite.

Submerso em delírios banais, eu fugi da realidade assustadora.

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Fonte da Imagem

https://pixabay.com/pt/photos/angkor-templos-de-angkor-angkor-thom-4834098/

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