Mão Limpa

Chegou pondo carga em meu ombro, e não era qualquer peso. Questão de vida ou morte preveniu antes do encontro, mas na minha frente, só a morte alardeou: “em ti me agarro nos minutos que me restam, por favor diga sim à minha súplica”. Implorou mais um pouco: “dê voz a um cadáver periclitante, cujas horas se esgotam em minutos, quem sabe assim alguma justiça se faça, depois do meu triste fim, atolado num lodaçal perigoso”.

Entregou o relatório, desceu furtivo a escadaria, fiquei remoendo a solidão da minha dúvida: o que tenho afinal nas mãos, uma batata quente das grandes ou arcabouço de um trote bem bolado? E agora, faço o que? Antes de partir troteando, arrancou de mim a promessa irrefletida de divulgar o tal manuscrito revelador. Se for mesmo assim tão letal esta ameaça, minha cumplicidade me arrasta em direção da mira implacável e assassina.

Havia uma brecha de ceticismo: palavras contundentes tanto poderiam trazer desespero genuíno quanto mentira deslavada.

Ora, não devo obrigação, pensei, basta jogar fora este recado e pronto. Ah! Mas a tal curiosidade, sempre vergando a prudência. Decidi meio no impulso: amassei acintosamente o papel, fingi jogar dentro da lixeira, meti fogo nela. Aos olhos de supostos espiões fiquei limpo, nada além de um estranho inofensivo sem prova e sem argumento.

Depois de ler trancado em casa o bilhete explosivo, também perdi a calma.

 Bati o olho soltei o verbo com toda convicção:

– Crime torpe, vingança descomunal, cruelmente descabida!

Selvageria graúda, hedionda barbaridade. Mal falei, baixou o arrependimento: serviu para alguma coisa abrir o bicão assim?

Percebi, não haveria eloquência capaz de frear a criatura, cruel e nefasta.

Que destino sórdido é este? A levar uma criança inocente que só matava de mentirinha em guerras imaginárias como faz todo menino em certa idade, a se tornar agora um sórdido homem embrutecido? Qual entidade subversiva planta infortúnio tão colossal na cabeça sadia dos abnóxios? Ou tal tendência lesiva de má conduta seria autoalimentada nos porões malignos da própria dúbia alma do vivente?

Nasci com a pesada maldição inglória de querer consertar o mundo, e insisti em prosseguir na infrutífera e insana missão mesmo depois dele receber como insulto virulento conselho bem intencionado. Então tratei de agir logo em seguida: cala-te boca, e salva-te se ainda houver chance, porque este criminoso feroz está arruinado nas trevas da perdição.

Julguei em alta voz na triste ilusão de causar remorso, mas apenas agitei o vespeiro da ruindade. Se você fosse fuzilado pelo olhar que me atingiu tenha certeza, se borraria também.

Ciente da podridão fétida em que meti o nariz enxerido, ponderei conserto. Dramatizo atacando ou me desculpo docilmente? Veja, havia ainda em mim uma ingênua esperança de salvação, senão dele, a minha. Rasgaria a garganta no afã de convencer o delinquente, não a se endireitar como tentei tantas vezes, mas apenas a relevar opinião indelicada.

Discurso dramático e afoito não surtiu efeito algum, então turbinei a verve conciliando interesse ao perceber que não havia mais espaço para qualquer espécie de acerto.

– No passado não se mexe, mas há chance de realinhar o futuro, lucrar mais sem tanto estrago.

Putz! Soltei sem querer outra crítica, agora sim morri de vez. Este tirano inacessível ao arrepio da penitência e da verecúncia sabe onde moro, monitora meus passos titubeantes. Já ouço o farfalhar do manto negro da morte!

Tenho certeza, o morticínio silencioso não foi motivado só pela minha fala recente, já disse, tentei outras vezes edificar um altar de virtudes, glorificar certezas sucumbidas na ruína da hecatombe do ódio acumulado daquele vômito fétido, mergulhado até o pescoço em coisa feia.

Não me julgues por tantas palavras duras, usualmente não sou tão prolixo, mas se visse metade do que vi, e sendo uma pessoa decente que sei que é, adoçaria meu rol de adjetivos assustadores.

Partilho o caso por uma necessidade faminta em dar publicidade ao segredo sombrio que presenciei, descarregando na confidência, o aperto palpitante a sufocar o coração. No entanto, vergado pela hipótese assustadora de sofrer retaliações, propus aliança me comprometendo a dar um basta, nada mais direi daqui em diante. Oh! Jura tola, desde quando morto fala?

Não medi palavras, agora amargo no lombo o peso das consequências.

Aventei um acordo conveniente para ele, nunca mais lhe aborrecer. Sim, com ombros vergados pelo peso incomum do cerco que se fecha contra mim, movido a boa intenção de sepultar iniciativas contrárias ao caráter do sujeito para salvar a minha pele. Amedrontado diante daquela encarada dolorida que nem bordoada, alerto a todos do perigo: cuidado, não tente endireitar quem nasce torto.

Assinado: aquele que nesta altura já morreu.

Só depois da leitura, vi a sujeira na folha amarrotada. Então tratei de lavar as mãos.

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