Minha Vez

Queria reunião urgente, sonegando a pauta: na hora eu falo. Aquela emblemática sinalização de emergência assustou um pouco, então cobrei: adiante alguma coisa, senão fica difícil. Desconversando, sinalizou: assunto de homem para homem.

Conselho sentimental? Logo eu, avesso a dar palpite? Tentei tirar o corpo fora: você me conhece, sou um bronco insensível, incapaz de atinar os mil segredos duma alma feminina.

Ninguém mais servia. Lhe conheço faz tempo, insistiu, sei que é o cara certo. Pelejei um pouco mais: invento história de todo tipo, mas aconselhar alguém de verdade? Nem tenho formação suficiente, minha seara é outra.

Não teve jeito.

Não conseguia namorada, era esse o seu problema. Acumulava fora, logo depois do primeiro encontro. A boa imagem de retidão não lhe garantia sucesso na hora de firmar um compromisso. As garotas escapavam, diante do aclamado bom partido.

Segui ouvindo a queixa do consulente.

Havia certo padrão na escusa, não era prudente desvirtuar afeto construído na amizade, em aventura de amores improváveis. E se não desse certo, a paixão não fosse mútua?

Que ironia, pensei. Como ajudar alguém a transformar amizade em romance se não consigo converter leitores em clientes? Também procuro quem me ensine. Como se nossos dramas se irmanassem numa tosca competição, comentei:

– Se lhe serve de consolo, alguns seguidores não compram meus livros.

Embalado, falei mais um pouco, sem me dar conta ainda, encaminhava o problema do rapaz:

– Ao que parece, precisamos expandir nossas buscas para além dos conhecidos.

Ele estava tão focado no próprio infortúnio que nem ouviu minha demanda. Apenas murmurou: como os atrevidos arranjavam mais de uma, e ele não? Sem esconder a pressa, cobrou: quando chegará minha vez?

Veja como as coisas funcionam. Passei umas dicas para o jovem, colhendo inspirações no educandário da vida. Saiu satisfeito, e segundo consta, depois daquele dia, teve melhor sorte. Não pense porém que estou me insinuando neste mercado escorregadio de alcoviteiro. Prefiro seguir meu destino surfando anonimamente, camuflado pelo manto confortável da imaginação.

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