Nuvem Passageira

Chegou me dedurando na frente da família:

– Esse aí fica vendo o que não deve.

Tinha esquecido o assunto, mas a criatura voltou com tudo. Gelei de medo: será que descobriu minhas olhadas de baixo para cima? É que lembrei dele sorrateiro estancado na trilha em direção ao leito seco do rio, averiguando quem falava lá embaixo. Na verdade, só vi porque berrou: então é você menino!

Não perdeu a viagem, ao me ver, o agourento profetizou: vai acabar cego mirando nuvem deste jeito.

Tivesse descido um passo a mais teria visto, contra a luz, as frestas generosas entre os pranchões da ponte, e pressentido outros inconvenientes. No momento réstia não havia, por conta da nuvem cobrindo o sol, parecendo que o tablado era maciço.

Nuvem salvadora que eu protegido pelo madeirame via nascer, se encorpar, desaparecer. Do nada cresciam, para depois sumir na amplidão do firmamento.

O povo andava animado naqueles dias pela expectativa de chuva. Por mim, preferia que a seca continuasse. O rio voltando a correr me desalojaria do posto, arruinando a espera de toda tarde. O melhor a fazer seria aproveitar por enquanto, e era isso que eu fazia, as nuvens se dissolviam rápido sem respingar, gerando apenas sombra e nada mais.

Com a pródiga imaginação lúdica da infância, eu dava significado para cada nuvem que surgia. Não era prudente falar, mas o entusiasmo prevalecia, daí narrava aos gritos: olha a moça de peito grande, que borboleta enorme, veja esta pedra gigante, que perigo cair na minha cabeça. Na cabeça não, porque estou protegido debaixo desta travessa reforçada. No caso específico, entreguei a posição quando dizia: olha o elefantão aprumado.

Quem dera agora, na presença dos meus pais e meus avós, a criatura estivesse apenas manifestando seu costume feio de se meter na vida alheia.

Seguiu testemunhando, viu de perto, eu o tempo inteiro com os olhos voltados para o céu, vendo tudo. Aquele “tudo” reacendeu o medo, agora sim me escangalha de vez. Tomara seja que este “tudo” se limite as nuvens ou será que ao voltar com a sobrinha me espionou na surdina?

Sim, eu temi censura grande, motivo existia. É que logo após o linguarudo se afastar do pontilhão, ouvi ao longe o soar da campainha do colégio das Carmelitas. Chega de ver nuvens por hoje, decidi. Aninhei-me na solidão da minha espera aguardando o pelotão de saia.

Fui advertido, e na raiva, miserável cabeçudo, fez isso para ferrar, não vi a brecha da vantagem, no âmbito do mau uso dos olhos, tudo ficou restrito as nuvens.

Susto grande bronca pequena, e só na frente do falastrão. Em seguida minha mãe passou um par de óculos escuro apaziguando meu ódio, minguando a revolta, ao comentar:

– O vizinho fez o certo meu filho, encarar nuvem reverberando luz forte pode mesmo prejudicar a sua vista. Só tire a proteção quando for admirar o que não pega sol.

 

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Fonte da Imagem: Pixabay

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