O Silêncio

Tanto pressionaram, “tem outras opções além de sanduíche”, “todo mundo já foi, só você desconhece”, que considerei seriamente a possibilidade da visita. Para constar, expus a última resistência:

– Quero que saibam, para mim por melhor que seja, nada substitui o tradicional.

O filho dispara, produzindo sibiloso arremedo verbal, grafado a seguir entre aspas:

– Mais um pouco e ele diz: “não por mim, estou indo pela família”.

Coube a filha desferir o golpe derradeiro, atacando duplamente este que escreve, atingindo num só golpe o paladar e a vaidade:

– Até os mais velhinhos já provaram, e saiba, lá servem palmito assado.

Na entrada, o filho sempre atento, percebeu meu entusiasmo mal disfarçado pela decoração bonita. Corneteou:

– Confesse que está gostando.

– O adorno agrada, vamos ver o principal.

Todos de cardápio na mão.

Enquanto os filhos instruíam a mãe sobre a vasta variedade de pães e de recheios para os pães, encontrei fácil meu almoço previamente decidido.

Não que eu seja fanático em controlar nutrientes, mas como o cardápio destacava a escassez calórica do prato como vantagem excepcional, busquei um complemento para a dieta tão pobre. Tivesse uma porção de arroz para acompanhar…

Ao encontrar a solução, comentei:

– Se todos ajudarem, peço esta linguiça enorme, que de tão grande até parece mortadela enrodilhada.

Exagerei um pouco, confesso, e o filho adolescente não perdoa:

– Até dizer que lembra um salame tudo bem, mas mortadela foi de doer.

Quando chegou o reforço ao palmito também miúdo, dobrou a decepção: na real, sem mentira nenhuma, não passava de uma minhoca torrada. O filho dá o tom:

– Reclame.

Ora, reclamar seria dar aula grátis, e não saí de casa disposto à caridade naquele dia. Ademais estava bravo, e decidi pela vingança silenciosa.

Alguém majora o drama, sugerindo meter o Governo no caso:

– Tem que denunciar no Procon.

Não é para tanto, pensei, imagine, envolver o Estado numa picuinha que até o garçom resolve, se a miniatura for recusada. Na verdade, vislumbrei uma ardilosa oportunidade naquele embuste publicitário. Sim, havia estratégia na minha aparente falta de atitude. Farejei uma oportunidade inconfessável de me furtar daquele novo conceito de restaurante, tão ao gosto da minha gente, que a mim não agradou.

O filho insiste:

– Se ninguém reclama, continuarão enganando.

Dei o assunto por encerrado, álibi definitivo para nunca mais voltar:

– Não a mim, daqui em diante comerei noutro lugar.

Conheça Profunda Identidade

Saiba Mais

Fonte da figura

https://pixabay.com/pt/photos/gato-engra%C3%A7ado-perseguidor-2579323/

Related posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *