Tonico parte I

Minha vida está praticamente esgotada. Não por efeito de doença ou acidente, é desgaste natural. Os anos acumulados, que são muitos, pesam mais a cada dia.

Não tenho mais disposição nem para uma caminhada curta – os músculos até reagem, já os pulmões… Mas fui atleta, pratiquei o futebol. Não profissionalmente, mas joguei, e fui bom.

Dava-me satisfação jogar bola noutro tempo. Agora me falta até mesmo o desejo em realizar os prazeres de antes. E isto é bom, na ausência do apetite, a fome não prevalece. A visão também não ajuda, a cegueira é grande, óculos não resolvem. Mesmo na mobilidade reduzida de um cômodo para outro, o ar me falta rotineiramente. Tive uma perna amputada, mas isto não me trouxe maior incômodo; na atual conjuntura o membro faltante não me levaria longe. Além do mais, a prótese mecânica adquirida no estrangeiro é de boa qualidade.

Contando assim, até parece mentira, mas dia desses, cambaleei por nada, tasquei uma bordoada na quina da porta, e uivei com o tinido do metal. Mais um pouco e isto sangra, seu Tonico, zombou doutora Leonilda, minha geriatra, quando lhe contei o ocorrido. Eis aí um resumo da situação. Percebe se que não estou me gabando. Por outro lado, não é lamúria o que descrevo.

Por ora, contabilizo uma vantagem fundamental. Consigo me higienizar sem auxílio de terceiros, preservando, até quando não sei, a dignidade. Graças aos acessórios que instalei no banheiro.

Na verdade toda a casa recebeu adaptações – há corrimão e apoios para todo lado. E isto, tomar banho sozinho, na minha idade e condição, não é pouco.

Assim, vou levando como posso, preenchendo o vazio do agora com boas lembranças do passado. Meu último amigo, nos meses que precederam sua morte, afirmava satisfeito: como o destino é sábio em me fazer esquecer as tristezas do hoje e a desgraça acumulada de meus dias, e manter límpido na lembrança enfraquecida os bons momentos de outrora.

Nunca fui dado a gastar palavra, como meu falecido amigo, só para deixar a frase bonita – mas agora vivencio algo parecido. Relembro mais as coisas boas, e dou graças por isso. Estou vivo. Vivo e pensante. Na medida em que meu tônus vital declina, a fantasia se expande.

A lucidez se contrapõe à atrofia muscular que decai numa falência completa. Padeço da fadiga da carne, mas a imaginação funciona bem. Se ainda tem algo em mim que não pifou de tudo, é o cérebro. Ao contrário do resto, trabalha bem.

Às vezes esqueço coisa assim “será que já jantei?”, experimento um delírio aqui e ali, mas isto não perturba. Na falta do que fazer – nem ler direito eu posso, reflito e medito sobre tudo. Entre o fútil e o nobre uma indagação nova agora surge: Deus existe? Se existia ou não era irrelevante, agora não. Pedia ajuda pra ele na dificuldade, agradecia na vitória. Força do hábito, sem maior reflexão.

O fato é que a resposta à minha dúvida, do ponto de vista científico, pode ser tanto um Sim quanto um Não. Aí está outra mania recente, invoco a ciência pra tudo. Não se trata de culto vazio pelas invenções ou descobertas. Gosto daquilo que me é útil. E credito a sobrevida adquirida, aos avanços da boa ciência – me mantém em pé, fornecendo o que preciso, até ar engarrafado.

Em outros tempos tive Deus como aliado. Em seu nome construí e destruí, degradei e recuperei. Em todos os casos enchi o bolso de dinheiro. Deixando a divagação de lado, vamos, pois ao que interessa.

Minha dúvida sobre a existência de um criador germinou a partir das frequentes notícias que ouço sobre o tal aquecimento global. Supostos entendidos atestam que a Terra está reagindo aos atos predatórios da humanidade. Se for mesmo verdade, tem aí contribuição minha. Depredei fauna e flora. Matei bicho por puro gosto, desmatei floresta inteira.

Fiz fortuna na compra e venda de terra. Legalizava área bruta devoluta e cortava a mata – terra limpa valia mais. Famintos se multiplicavam – o cultivo era solução. Não parei aí, poluí água também – despejava dejeto no rio, substância que matava o peixe. Removia do caminho qualquer um que tentasse frear meus intentos. Na conversa, no suborno ou força bruta – nesta ordem.

Até aqueles que se erguem contra a verdade dominante, reconhecem os maus tratos ao Ambiente, independente do gelo derretido.

O fato é que eu aceitava Deus e a natureza como uma única entidade, no caso um Deus salvador, tolerante e bondoso, me perdoando os pecados, não se importando pela quantidade nem dimensão deles; uma natureza generosa, capaz de me suprir com o essencial e o supérfluo.

Pois justo quando minha hora está chegando, um novo anúncio conspira contra minha fé, revelando traços reativos da mãe natureza tal como os vingativos deuses mitológicos de outros tempos, ou o antigo Deus da minha fé, que se arrependeu da própria criação. Sim, minha fé. Usava a palavra Deus em meu favor para aumentar o patrimônio, já disse e não vou negar.

Na verdade utilizava a figura do criador para toda finalidade – inclusive conquistei corações em seu nome. Mas ateu, ateu mesmo, nunca fui. Deus há de ser testemunha.

Extraído do livro a Primeira Pedra, 2015.

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Fonte da Figura

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