Tonico parte II

Se eternidade houver – que bom seria, logo saberei. Acredito ser dela merecedor. Se não fui santo, paciência – também não sou anomalia completa. Se fiz coisa não bonita – nunca fiz maldade pura. Pragmático, sempre; impiedade fortuita, jamais.

Voltando a questão da morte que me ronda. Não tenho pressa de expirar. Apesar de aleijado e quase cego, o Planeta esquentando, não quero me ir ainda.

Por quê? Ora, porque, a vida tem que valer por si mesma. E minha carcaça deformada é o que sobra, o resto é a escuridão da morte.

Quando moço, a ideia vaga de uma velhice distante me parecia cruelmente assustadora. Triste seria. O óbito se avizinhando numa certeza definitiva, sem margem para a esperança – ou sonho. Hoje, no entanto, cercado de dores e privações, não lastimo a possibilidade quase certa do nada após o fim.

Apesar da dúvida recente, acredito num Deus eterno. Quisera ter a certeza de que também sou.

Vivi o suficiente para ver ruir uma a uma as ilusões da vida. Convicções que salvariam povos, utopias prometendo a redenção da humanidade inteira.

Epidemias que vieram e se foram. Antes de sucumbir, mataram mais gente que a peste. Sequelas deixaram, patologia cerebral ainda sem cura.

Por mim não reclamo, toda ideologia me deu lucro. Ressalva faço – gente morta não consome. Aprendi depois a apreciar o básico, que reside nas pequenas coisas. Regalias antes não percebidas, como o cantar do sabiá que me visita regularmente.

Agora, agrado e cativo o alvo de minha antiga caçada. Uma fruta por um concerto. Está aí um bom negócio. Aliás, passei a vida lucrando – pilhando ou recompondo estrago feito. Quanto a minha tática com o passarinho, funciona melhor que àquela estabelecida com meu neto: apesar de agrados generosos, foge de mim o quanto pode.

Pra que me tolerar se já tem o que importa? Aprendeu a ter paciência. Só esperar um pouco, e leva tudo que tenho. É a palavra da fria lei em sua derradeira decisão. Não cabe mais recurso – será ele meu herdeiro. Voltando à história da ave. Dias atrás, faltou banana na praça, então forneci outro alimento ao sabiá.

Desconfiado, demonstrou insatisfação, virando-me as costas acintosamente. Alvejou-me com seu pingo quente, para no instante seguinte bicar o petisco, refestelando-se na novidade.

Mal agradecido, não cantou pra mim naquele dia. Papo cheio, o ingrato saltou rápido para um galho distante – neste mundo, até a boa mudança assusta. Decidi na mesma hora: poupo-lhe a vida, a liberdade não. Da próxima quero ver se não gorjeia, tranco o fujão na gaiola.

Amélia é pessoa de confiança, honesta e sem ambição. E bonitona, por isso tudo a contratei. Cuida de mim e de meus cristais. Pago bem e não reclamo.

Vale cada centavo – me trata como um rei. Escolhi mulher nova, pra velho basta eu. No anúncio eu pedia moça de meia idade, sem compromisso, interessada em cuidar de idoso aleijado, e ela ao chegar estranhou. Parece que errei o endereço, não encontro ninguém deficiente, nem portando necessidades especiais, só vejo um senhor sadio, vivendo a melhor idade.

Rápido, escondi a bengala. Gostei da candidata na hora. Mas não pense que acreditei no elogio. Em verdade, nunca confiei nas pessoas. Mesmo não acreditando, foi gostoso ouvir aquilo. Com o avançar da idade, nada é bom ou melhora, e a saúde é aquilo que se perde. A coisa não é boa pra quem chega onde me encontro. Mas não estou aqui para lamentações, já disse. O que faço é uma espécie de relatório. RELATÓRIO, não confissão de arrependido – nem apologia de orgulhoso.

Nunca fui dado a muita exposição, e oculto agora, inclusive meu próprio nome. O apelido acabou escapando num descuido, agora pouco, e em termos de identidade será tudo que informo. Se não quero aparecer, por que então avanço expondo minha história, se nem há nobreza em meus feitos?

Sou movido por uma necessidade aguda de sobrevivência. O fim assusta mais que a morte. Descendente não terei, depois explico por quê. Uma fotografia e um epitáfio são pouco pra mim. Do enterro Amélia cuida. Minha vaidade pede mais que um simples túmulo.

Sempre gostei de acumular dinheiro e riqueza. E agora, de repente, me dou conta de que se não gasto um pouco em publicidade, morrerei em definitivo, sem deixar obra nem legado.

Descendente já disse, não terei. Este registro será portanto minha alma vagando por aí. Tentando a imparcialidade, ao meu modo, conto tudo, ou quase tudo.

Não, vagando não é o termo adequado. Um espírito adormecido, sem nome e sem rosto. Mas acorda e ganha vida na decodificação mental de cada leitor. É isto, serei ressuscitado por meio da leitura. Não sou carne, só verbo. Daí, que meu nome não faz falta. Minha personalidade basta.

Viverei em cada leitura que houver, tomara sejam muitas – além da sua. Escrevo em vida, claro, pois relatei minha condição presente ainda há pouco. Mas já agora, neste outro agora, é você que me dá existência. Existência plena, não mais um ancião na beira da morte. Não estou mais preso ao barro – nem ao tempo. Um contrato bem amarrado foi a minha garantia. Em vida aticei a cobiça inata das pessoas em meu benefício, porque é assim que a coisa melhor funciona. Não seria depois de morto que mudaria a estratégia, dependendo de caridade alheia para me trazer benefício.

Extraído do livro a Primeira Pedra, 2015.

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Fonte da Figura

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