Tonico parte III

 

Minha vontade dito eu – ainda agora. Portanto, não é o medo que me faz esconder o nome, quem afinal pode atingir aquele que não existe? Só faço o necessário já disse, e alcunha não é preciso ter na minha história. É a cobiça que move o mundo, o egoísmo puro do ambicioso que me garante o interesse.

Meu relato não pode sofrer alteração, seja de palavra, vírgula ou ponto final. Nem mesmo eu posso modificar aquilo que escrevi – grafei, está grafado. Satisfeito por mais um bom negócio fechado, ponho-me a escrever.

Num balanço rápido, cito ganhos em minha aventura terrena. Lucrei ao aceitar o avanço dos tempos. Nas doutrinas, nos costumes e na tecnologia. Enquanto uns recriminavam as novidades, eu enriquecia a custa delas.

Quanto a tecnologia, me prolongou a vida na base de vitaminas, remédios e exames. Muitos exames, massagem também. Até me apresentou um neto tardio, cuja própria mãe eu ignorava completamente. Ignorava no sentido da lembrança, não vou negar que transei com a mãe dela. Houve um genoma que o tribunal aceitou como prova. Enquanto o processo corria, morreu avó e morreu filha, só restou o neto tratando interessado com meu procurador. Defendido por estranho, permaneci longe de quem alegava ter o meu sangue.

Em vida gozei todos os prazeres carnais possíveis, da mesa e da cama. Sem culpa, sem nenhuma culpa. Na questão pecuniária houve também acerto, descontando os exageros. Na verdade, para o bem ou para o mal, exagerei em tudo. Convenhamos, “para o bem ou para o mal”, não pegou bem.

Apenas exagerei, e ponto final. Fui um predador implacável, prejudiquei pessoas. Feri sentimentos, burlei acordos. Tudo isso e muito mais, em causa própria. Inclusive a avó de meu neto, que juro, não se lembrava dela, sofreu desilusão comigo – segundo constou em depoimento. Outras sofreram que eu sabia. Acumularam mágoas, me rogaram praga. Nada me atingiu – nem sofri remorso por isso. Tudo que fiz é nada perante a maldade coletiva do mundo. Do que mais gostei na vida foi ganhar dinheiro.

Ganhei bastante dinheiro. Bastante não é muito – dinheiro nunca é demais. Em se tratando de dinheiro, o que sobra não falta. Já disse, fui sujeito exagerado. Não pense que estou arrependido: foram as reservas financeiras que me garantiram o conforto quente no frio de minhas noites. Considero que falhei apenas nos excessos praticados que acentuaram depois minha condição mortificante. Tive vícios. Gozei e sofri por eles. O mais foram circunstâncias, apenas circunstâncias. Não me agradou das vezes que despejei famílias no olho da rua – mas também não tive pena. Criancinha chorando, e daí?

Minha função no caso era locar imóvel, não praticar caridade. Que cada um cumpra com seu dever. O meu era fornecer a moradia, cabia ao inquilino honrar o pagamento do aluguel. Se nem o provedor se esmerou em garantir o abrigo da família, o que esperar de mim, apenas o senhorio?

Nunca tive relacionamento duradouro. O território do afeto não era minha praia. Os poucos conhecidos que tive morreram antes de mim. Sepultar o último amigo foi doloroso demais. Não há unguento que cicatrize as feridas da solidão, teria dito ele, um poeta. Daí o esforço infrutífero depois com o neto, e o desespero tardio com o sabiá. Minha fortuna atraiu a cobiça, a genética me revelou o descendente, mas DNA sozinho não garante apreço.

Tantas protelações daquele processo sem fim custaram dinheiro que só o rico tem, enquanto isto o descendente cresceu e virou homem. O rapaz tinha meu sangue, mas em termos de vínculo o conheci num ponto sem volta, tarde demais. E decidiu, não ia procriar. Tinha lá os seus motivos, cada um tem seu motivo – ou pretexto. O fato é que por uma dada razão – não o tirei do caminho.

Meu corpo definhou na hora certa. O mundo ainda agoniza. Prematuramente – advogam vozes agourentas. Mas acredito, assim como eu, cumprirá totalmente seu destino. Extinguir-se-á de velho em bilhões de anos. Receberá em tempo os cuidados que precisa. Na natureza não há vítima, tudo é alimento – ou matéria prima.

Voltando à minha pessoa, tudo se reduz a negócio. Lutei por cada negócio. Prestei serviço, paguei salário. Saciei a fome de muitos. Que ninguém me ataque de barriga cheia.

O mundo anseia por grãos e bife, e isto não cresce na mata virgem intocada. Tem ainda manufatura e transporte – que aumenta o faturamento. Recolhi os impostos que não pude sonegar. Por último, bactérias engordaram às minhas custas.

Cumpri totalmente meu ciclo. Lucrei na segregação, lucrei na integração. Lucrei na destruição, lucrei na reconstrução. Sempre atentei para o sopro do vento. Uns traziam a vida, outros a morte. Perfume ou carniça, tudo vira dinheiro quando se tem habilidade.

Não chega a ser arrependimento, apenas uma reavaliação de alternativa, mas o fato é que se eu pudesse voltar no tempo, uma coisa eu faria diferente. Nunca fui homem fragoroso, mas num último ato, romperia o silêncio de uma vida e revelaria minha outra intenção. Num último ato, fique isto registrado.

Extraído do livro a Primeira Pedra, 2015.

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