Vi Tudo

Gente transitando pela calçada, se bronzeando na areia, pulando onda, montada em jet-ski. Iates flutuando, teleférico indo e voltando, navios ancorados.

Lugar movimentado, atração de todo tipo.

O tamanho extraordinário do navio de luxo dava a falsa ilusão de estar perto, na verdade atracado na fronteira do mar aberto. Turistas entravam e saiam dele em barco estrangeiro.

Os cargueiros permaneciam plantados na água além do horizonte.

Uns trabalhando, outros passeando e eu aqui espiando tudo.

Enquanto me deliciava no ócio preguiçoso, um dos cargueiros se mexeu, se aproximando. Acompanhei o percurso, parecia lento mas a viagem rendia. Cresceu na direção da costa, quebrando para o lado do porto. Das lentes poderosas do binóculo, nem a logomarca dos contêineres escapava.

Enfim embicou entre os morros, sumindo rumo às docas.

Só então, senti os braços doloridos. Quanto tempo fiquei assim, segurando esta luneta? Melhor relaxar os músculos, prometi e hei de cumprir, só o conforto terá vez no litoral.

Saciado de embarcações, decidi contemplar os novos edifícios do balneário, um tão lindo quanto o outro. O descanso está gerando efeito, pensei – vejo deslumbre em tudo.

De repente, a movimentação estranha na última laje: o que se passa lá em cima? Por que este vulto atormentado caminha para lá e para cá? Apontei para ele as objetivas do equipamento. Era um jovem. Tanta beleza e não enxerga, agitado assim? Estaria confinado por acaso?

Inquieto, parecia enjaulado em si mesmo. Olhava para baixo, estudando alguma coisa. Queria escapar de todo jeito.

Dei um close nele, transparecia uma dor aguda, emergindo da alma. Era ele que tremia ou meus braços fadigados?

Pressenti algo estranho na sua movimentação perturbadora. Será o que estou cismando? Preciso acionar as autoridades.

Chamei a opção de emergência indicada no celular, não era aquele, mas informaram o número correto prontamente. Quiseram saber meu nome e outros dados, o endereço da suposta ocorrência. Quais eram as evidências da minha hipótese? Respondi tudo certinho, exceto a posição. Servia uma descrição do entorno?

Nisto o rapaz subiu no parapeito, se revelando por inteiro, descalço, só trajando uma bermuda. Ao que pareceu, não contava com a agressão do calor latente da alvenaria exposta ao relento, queimando que nem brasa. Deu um pequeno pulo, e Deus perdoe espalhar, perdeu o equilíbrio, escorregou para fora. No impulso, se agarrou no parapeito.

A fachada queimando no mormaço do verão lhe castigava a pele nua, decerto sofria horrores, por dentro e por fora.

Imagine, se a minha mão acusava cansaço por segurar uma minúscula peça oca, quem dirá ele, se empenhando em levar de volta contra a gravidade o corpo volumoso, maltratado pelo concreto ardente.

Na derradeira hora, o instinto de viver prevaleceu, lutou então com toda força.

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2 comments on “Vi Tudo

Name *Deus Carmo

Muito bom o Vi Tudo. Há escalada de acontecimentos muito bem arquitetada. O fim ficou parado no ar. Muito lindo. Parabéns, Peço uma visita a meu Noite em Paris.

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