A Bicada

Florentino Fagundes, 2017

Esta estória não traz nome ou endereço de pessoa. Mentirei se for preciso, mas não entrego o personagem que avistou o papagaio.

Tudo ajudou. Dia claro, caminho livre, a mancha verde em destaque. Mais ainda, a ave se insinuou para o personagem, praticamente obstruindo a passagem. Esperta, temendo ser pisoteada ou sabe-se lá porque, declarou fanhosa.

– Papai!

De longe pássaro lindo, de perto nem tanto. Caminhar cambembe, bico avariado, penas aparadas. Sem asas pra voar, restou o chão.

Há um mistério bem guardado nesta estória. Afinal, o papagaio fugiu de maus tratos rotineiros ou a maldade se revelou súbita no abandono inesperado? Segredo insolúvel, só sabe falar “papai”.

Aquele encontro deixou o personagem admirado, que surpresa. Hesitante também: levo embora ou deixo aqui? Transferiu a decisão para o papagaio. Agachou-se, aproximou o dedo fura bolo. O louro se jogou agradecido, selando a relação.

– Papai!

O adotado ganhou abrigo e comida, um poleiro confortável – pequena árvore seca, com galhos naturais. Tomou conta do pedaço, se revelando ciumento e agressivo. Só tolera quem lhe deu refúgio. Ataca as demais pessoas com garras e bico, ou soltando o verbo simplesmente.

– Currupaco!

Relação movida pela insegurança, um querer bem possessivo. Dos dois lados. O personagem cogitou uma gaiola pra aprisionar quem talvez resolvesse fugir, mas decidiu pela praticidade de podar asas que teimavam em crescer. Mera prevenção, a ave sinalizava claramente em toda oportunidade não querer outra amizade. Cobrava dedicação de seu amo, agredindo ferozmente quem mais tentasse intimidade.

– Currupaco!

Apreciava se distrair lá fora, mas temia a solidão. Meio passo de distância, se grudava desesperado nas calças do “papai”.

Descer e subir no poleiro, ele sabia. Rapidinho. Se deixassem, circulava por tudo, subia no sofá, espalhava sujeira.

Era um valente medroso, refugava qualquer coisa. Até um cisco. Pra manter a casa limpa, montaram uma cerca invisível de pedrinhas separando a sala da varanda. Ao se deparar com a fortaleza imaginária, o papagaio debandava amedrontado para o abrigo do seu canto.

– Currupaco!

Não se interessou em falar outra palavra além de “papai” que já sabia. Em momentos de irritação, gritava escandaloso na língua nativa, currupaco.

A fama do papagaio aloprado chegou aos meus ouvidos, fui checar o caso de perto. Pense num animal esquentado. Ameaçava crianças e adultos da casa, eu então, nem se fala. Mente perturbada, se defendia até da sombra. Nem o tronco do poleiro escapava do seu ódio incubado, fustigava a madeira com o bicão torto, produzindo barulho grande.

Perguntei, ao ver pena esverdeada se recompondo.

– Não tem medo que fuja daqui uns dias?

O personagem apontou a tesoura afiada, justificando a convicção.

– É meu até a morte!

Cheguei perto, o papagaio não disfarçou o ódio que levava dentro dele, se jogou nervoso contra mim. Esquecido que não voava, se esparramou no piso. Pra sorte dele, galhos flexíveis atenuaram a queda. Tal qual alicate vivo, descontou a raiva triturando o último graveto que o protegeu, quebrando tudo em pedacinhos.

Ainda assim alimentei pretensão: vou ganhar sua confiança. Ignorei alertas repetidos, decidi imitar quem conquistou-lhe o coração. Claro, isso é instintivo, pensei, dou o dedo, ele dá o pé.

Deu foi outra coisa, com toda fúria. Tanta braveza seria fidelidade a um só amor de cada vez ou patologia avançada?

Que imprudência tosca, agradar quem está repelindo a gente. Pelo estrago que fez na madeira dura, deveria ter imaginado o tamanho do risco em oferecer a pele macia do meu dedo indicador.

COMPRAR LIVRO A PRIMEIRA PEDRA

* Livro de contos

Alguns comentários de quem leu

“Mestre… Li seu livro … e adorei…

Como pode caber tanto conhecimento e doçura dentro de uma pessoa só?”

Jéssica Carvalho, profissional da área contábil.

“Gostei muito dos contos que estão no seu livro … tu tens uma bela imaginação. …só não gostei do IMPERDOÁVEL, levei o maior susto no final. Não gostei por ser tétrico o seu final. Mas reconheço que sua imaginação se superou, parabéns!”

Edite Isabel Machado, professora de literatura.

“São textos surpreendentes, com temperos de tradição e de modernidade. É uma preciosidade literária”.

Elias Daher, crítico responsável pela comissão técnica da obra.

Fonte da figura

https://www.google.com.br/search?q=foto+de+papagaio&client=firefox-b&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ved=0ahUKEwiOiJ3TucHVAhXJTZAKHdXcDEQQ7AkIQQ&biw=1147&bih=567

 

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2 comments on “A Bicada

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