A Dúvida

Reclusão forçada pelo vírus contagioso, caminho na garagem, girando em torno do carro.

Vamos esclarecer de uma vez. Não estou doente, nem deveria pôr na conta do Coronavírus esta mania de andar em círculos, porque isto não é de hoje. Vem de longe esta minha esquisitice. Agora, com o surto impondo restrições, ninguém estranha. No passado, fui taxado de maluco:

– De que adianta percorrer um trecho tão pequeno?

– O que vale é o tempo, e sai de graça. Fosse na esteira da academia, teria que pagar mensalidade.

– Não fica tonto?

– Mudo o sentido.

Por que hábito antigo, merece registro agora?

O gato.

Na ausência de assunto para os contos, vou me apropriando daquilo que aparece. Para isso, o gato serve.

Era um casal, idêntico. Estranho, aparece um só de cada vez. Cadê o outro? Não gostam de andar juntos ou o que?

A dona dos gatos foi internada às pressas, deixando os dois para trás. Antes que alguém se arvore em acusar, me apresso em dizer: ninguém abandonou animal nenhum. São tratados direitinho, ração e água abundantes. Em todo o caso, alguma privação deve existir, senão não pularia o muro na hora certa, para ficar tão próximo da minha trajetória circular.

Não mia nem abana rabo, só fica olhando com a cara de paisagem, e eu tolerante, não espanto. Para sorte dele, já é avançado da noite, as cadelas do condomínio estão dormindo.

Será que a peste judiando o povo, faz de mim um piedoso?

Este gato deve sentir o baque da solidão, a ponto de se chegar assim perto de estranho. Em outra época que eu saiba, só tolerava a dona e olha lá. Enferma, vamos torcer que sare. Coitada, amargando despesa adicional com tratador de gato.

Se tentasse intimidade antes, eu o espantaria batendo os pés dizendo chispe, chamaria as cachorras para ajudar no serviço de enxota-lo para fora.

Tenho motivos para tanta birra. Um deles assassinou fortuitamente minha sabiá de estimação. Miserável, agiu por maldade pura, não aproveitou bem a carne.

Deixo escapar a ocasião de revanche, em vez de agir, aceito a presença do intruso no meu quintal. Se faz de morto. Talvez queira afeto, uma frase amistosa ou gesto acolhedor que jamais terá de mim. Precavido prefere a sombra, evita se expor na claridade. Será que o distanciamento é pela natureza arredia ou tem a consciência pesada? Medo do Covid19 é que não é.

Na incerteza, controlo meu instinto vingativo. A distância lhe garante o benefício da dúvida, não consigo decretar se é ele o matador de passarinho. Ao que parece, jamais descobrirei qual deles assassinou a sabiá.

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Fonte da Imagem

https://pixabay.com/pt/photos/gato-olhos-azuis-animal-de-estima%C3%A7%C3%A3o-3336579/

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