A Gorjeta

Florentino Fagundes, 2017

Tinha nove anos de idade. Acompanhava minha irmã no dentista do Bacacheri, e a demora me deixava impaciente. Uma espreguiçada e me levantei estudando a área, um passo de cada vez. Aproveitando a distração da irmã, tentei escapar. Na verdade estava atenta, se imbuiu de autoridade.

– Já pra dentro!

Dominado pela curiosidade pulsante, não rolou obediência. A tentação materializada no carro luxuoso de capô escancarado na avenida Erasto Gaertner. Mas agir no impulso sepultaria futuros passeios, então decidi aguardar um melhor descuido pra escorregar dali.

Da porta, continuei admirando o sonho de consumo daquela época, indiferente ao vento cortante que soprava impiedoso. Tão novo e bonito, enguiçado em frente ao muro alto da Aviação.

Pensando um pouco, encontrei a solução. Esse dentista é enrolado, cada um que entra vai um tempão. E durante o atendimento, não tem como a irmã me vigiar. É isso, quando chegar a vez dela, vou ver o carrão de perto. Só espero que não consertem antes.

Por pouco não perco o lance. Bem na hora, o mecânico dava o trabalho por encerrado, instruindo o proprietário, gordo e careca.

– Então se prefere assim, vá atender sua urgência, mas não esqueça. Enquanto essa peça defeituosa não for substituída, vai lhe atormentar em dias frio. Se quiser, passe na oficina depois que eu faço a troca. O serviço daqui, acertamos agora.

Grana não era problema. Puxou a carteira estofada, entregou a quantia, nota por nota. Mais dinheiro foi parar nas mãos do mecânico pra adiantar a compra do componente danificado. Cobrou empenho, queria retornar pra casa antes da noite. Disse a cidade, mas não lembro. Generoso, puxou outra nota graúda.

– Toma uma gorjeta por ter me atendido tão cedo.

Ia voltando apressado pra recepção do consultório quando o maluco me cercou na esquina. Por um instante me gelei de medo, mas o susto foi à toa. Os braços abertos do vivente dentro do capote folgado, imitando um espantalho, se revelaram mais cômico que assustador. Quis amedrontar, mas logo percebi, não havia potencial de ameaça naquele gesto inofensivo. Inclusive eu ri, quando ele soltou o “Buuuu!!!”. Então mudou a tática, revelando certa arrogância. Imagine, resolveu me tomar lição de história, assim do nada, em plenas férias de julho.

– Quando eu usava calça curta, essa avenida tinha outro nome, sabe como se chamava?

Além de conhecer antigo nome de rua, ele soube interpretar meu silêncio.

– Ao menos sabe quem foi Erasto Gaertner?

Também não sabia, mas aí justifiquei. Estava ali de passagem, morava noutro lugar.

– Mas garanto que o nome do automóvel que veio espiar, sabe de cor!
– Rabo de peixe!
– Pela cara, quer guiar um desses quando crescer. Pois implore a Deus que encontre gente de bom coração pra lhe dar gorjeta generosa.

Nisso a irmã berra nervosa lá do meio da quadra, cobrando a palavra que não honrei.

– Você prometeu que ia se comportar!

Nossa! Que consulta rápida…

Corri de encontro a ela, já pensando noutra coisa. Ara, pedir a Deus pra ganhar gorjeta? Eu não! Quando crescer, vou ser rico e justo que nem o homem do rabo de peixe. Daí saio gratificando todo mundo que merece, sem depender da bondade dos outros.

Notas

  1. Bacacheri: bairro de Curitiba
    2. Aviação: Força Aérea

COMPRAR LIVRO A PRIMEIRA PEDRA

* A primeira Pedra é um livro de contos.

Comentários de quem leu

“Mestre… Li seu livro … e adorei…
Como pode caber tanto conhecimento e doçura dentro de uma pessoa só?”
Jéssica Carvalho, profissional da área contábil.

“Gostei muito dos contos que estão no seu livro … tu tens uma bela imaginação. …só não gostei do IMPERDOÁVEL, levei o maior susto no final. Não gostei por ser tétrico o seu final. Mas reconheço que sua imaginação se superou, parabéns!”
Edite Isabel Machado, professora de literatura.

“São textos surpreendentes, com temperos de tradição e de modernidade. É uma preciosidade literária”.
Elias Daher, crítico responsável pela comissão técnica da obra.

Fonte da figura

https://www.google.com.br/search?client=firefox-b&biw=1147&bih=567&tbm=isch&sa=1&q=carro+rabo+de+peixe&oq=carro+rabo+de+peixe&gs_l=psy-ab.3…25453.28630.0.32458.12.12.0.0.0.0.106.1149.9j3.12.0….0…1.1.64.psy-ab..0.0.0.ehFDnPqQo2U#imgrc=_

 

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