A Guerra do Pente

 

Aconteceu em Curitiba capital do Paraná. Episódio incrível e perturbador, imagine você, um conflito intenso e raivoso, tendo como estopim um mísero pente de plástico.

Não sou fiador da História, meu lance é narrar contos, o resto é acessório ou moradia dos personagens.

Juvenal testemunhou aquele tempo atribulado.

Citou dados assustadores, cifras impressionantes. Num rastilho de cólera, lojas saqueadas, patrimônio destruído. A polícia sentou o pau a torto e a direito, prendeu gente em quantidade, mas em vez de abafar a rebelião, a violência inflamou ainda mais a ira dos revoltados.

Não acreditei:

– Como assim, tanto estrago por tão pouco?

Não que eu estivesse imputando ao Juvenal qualquer má reputação de mentiroso, é que o motivo da insurgência conspirava contra a lógica. E você sabe, a imaginação é partidária do exagero.

Juvenal reagiu:

– Espere aí que vou provar.

Por um instante, considerei ter sido grosseiro em casa estranha, Dorinha tranquilizou:

– Ele adora mostrar o repositório.

Juvenal exibiu arquivo com foto, comprovando o que dizia. Apontou a figura de alguém paramentado:

– Este sou eu, no último dia da guerra.

Quis ler, fechou a pasta:

– Pelo que andei sabendo é um curioso contumaz, saindo daqui vai correndo escarafunchar os jornais na Biblioteca Pública do Paraná, nossa querida BPP. Então agora só veja a data e escute.

Vi: onze de dezembro de 1959. Antes de escutar, fiz contas e concluí: o quebra-quebra começou no dia 8.

Pus dúvida no que escutei:

– Só três dias, que guerra foi essa tão curta assim?

– Durou pouco graças ao Exército, o último bastião da paz ocupou o centro da cidade, com tanque e armamento, pacificando a região. Sem intervenção de maior peso, sabe Deus até quando duraria aquela furiosa crispação social.

Pedi para rever a foto:

– O senhor é Cabo?

– Sou não, fui. Era cabo aí na guerra, depois galguei promoções, agora ocupo o posto de subtenente. Até chegar minha reforma, atinjo a patente de oficial. Dorinha não contou?

Doralice desfrutava o dom de resumir, focando o essencial. Como é seu pai? Falante. Onde ele trabalha? Onde usam roupa verde. E sua mãe? Mandona. E seu irmão pequeno? Confiado.

Doralice me sonegou o cargo do pai dela, mas que bom, fui recarimbado de outra forma perante ele. Melhor assim, que fique só entre nós o apelido cunhado por Dorinha um mês atrás lá no portão.

Juvenal seguiu dando forma à ocorrência. A fagulha foi a birra intransigente de um freguês exigindo nota fiscal do fatídico pente de valor irrisório, no entanto aquela guerra foi gestada lentamente na alma curitibana.

Depois de alguma ofensa, o cliente e comerciante saíram no braço, e aquilo foi a gota d’água que rompe o dique.

Por que a briga proliferou como fogo na palha seca?

– Havia revolta represada no pacato peito dos curitibanos, raiva latente contra os malditos turcos.

Foi um rancor plantado em terreno fértil, e bem regado, a semente germinou e produziu o fruto amargo:

– Gente perversa e de boa lábia atiçava a discórdia gerando mágoa, corrompendo os inocentes, rachando a cidade entre a tribo de explorados e matilha de exploradores.

Juvenal balançou a cabeça, como se falasse para si mesmo:

– Um coração envenenado é capaz de coisa feia, de repente o ódio explodiu como estouro de boiada.

Expus minha visão:

– Se tem comprovação tudo bem, mas daí a chamar isso de guerra, o senhor mesmo admitiu que não teve morte. Não seria mais correto dizer tumulto ou vandalismo?

– O termo guerra pegou. Ademais, os feridos se amontoaram.

O dinheiro era outro naquele tempo, com poder de compra próprio, por isso suprimi os números recitados por Juvenal. Segue o resto da conversa:

– No calor do ataque, quem nada tinha a ver com a briga, apanhou também. A prosperidade de judeu, árabe, italiano e brasileiro, todo lojista pereceu na vala comum pejorativa dos malditos turcos que engordavam os bolsos, sugando os trabalhadores.

Se não era a ganância dos “turcos” que arruinava a vida das pessoas o que seria então?

Brasília em construção cobrava o preço, como de resto usurpa o povo até hoje, atestou Juvenal em seu drama exagerado. A conta chegava disfarçada no mais cruel dos impostos, a inflação corroendo o poder de compra, enquanto manipuladores dos ingênuos canalizavam a culpa para os ombros dos tais turcos avarentos.

Descortinando o ambiente adulto, eu desconhecia os preceitos da Economia. A causa invisível da guerra, parecia mais irreal que a própria guerra. Sim, sou curioso e assumo: ainda hoje baixo lá na Candido Lopes, me aguarde BPP. Melhor pensando, preciso acreditar no Juvenal para compreender tanto absurdo. Quero entender agora mesmo a capilaridade desta tal inflação medonha que rouba todo mundo impunemente.

Doralice se espreguiçou ao meu lado, e se eu fosse um pouco mais esperto para certas coisas, teria percebido que ela talvez quisesse participar da conversa ou finalizar o assunto. Sua mãe atendeu de imediato ao chamado codificado em bocejo. Apareceu na porta, de avental. Mãe e filha se entenderam, numa troca sutil de olhares. Então, veio a ordem da patroa:

– Juvenal, venha já aqui ajudar no almoço, deixe os dois em paz aí na sala.

 

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Fonte da Imagem

foto de curitiba antiga – Bing images

 

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