A Inauguração

O carro de som ia e voltava, martelando: “venha conhecer de perto quem atendeu o clamor do povo. Cheguem cedo, vai ter churrasco”. Em cada poste, cartaz trazia rosto alegre, reforçando: o governador marcou presença.

Na barbearia, no açougue, em todo lugar o mesmo assunto: inauguração da obra.

Estou nessa: hoje vou comer de graça!

Quando me aproximava do local pra se esbaldar as custas do contribuinte, a comitiva da capital encostou. A primeira dama desceu do carro, avistou um cidadão. Comentou admirada com a esposa do prefeito.

– Calçado é usual, jaqueta, calça e até chapéu já tinha visto. Mas camisa? Primeira vez que vejo camisa feita de pele!

Que olho extraordinário. Não enxerguei o sujeito, ela precisou a matéria prima da roupa dele.

A esposa do prefeito interpretou mal o comentário da visitante, e no afã de agradar, se apressou em reforçar desprezo pelo figurino exótico.

– Cruz credo, se vestir com casca de bicho morto…

Mas a outra, ligada ao ramo do artesanato, havia se encantado pelo traje, queria a procedência daquelas vestes. Agucei os ouvidos: ele mesmo produzia, fixava couro com couro.

– Couro em lugar de linha? Que primor de acabamento! Pele de quê?

– De boi, de cabra, de carneiro, do que tiver.

Alguém reconsiderou concepção.

– Agora que vi o quanto é linda…

A primeira dama propôs comprar, o homem fez um gesto, a dizer: e ficar pelado?

Sugeriu troca, mas o cidadão não se interessou por nenhum tipo de permuta envolvendo pano. Ela insistiu no couro do nativo.

– Com quem aprendeu?

– Sozinho…

– Já ensinou alguém?

– Sei fazer, não sei contar.

– Estaria disposto a partilhar a técnica?

Pareceu duvidar da própria capacidade e do interesse de alguém pela sua habilidade. Ela, obstinada, tinha alternativa pra tudo.

– Faz devagarinho, a gente reproduz e registra num manual.

– Melhor conversar depois, veja estão chamando a Dona. Vergílio espera aqui.

– Se prepare, quero um retrato…

Não vi parado nem fugindo, interessado na aglomeração ao redor de quem mandou erguer a benfeitoria. Ou seria o antecessor?

Uma voz feminina bradou atrás de mim.

– Mentiroso deslavado!

Julguei que atacasse o político alardeando aos berros o quanto tinha se esforçado pra sensibilizar autoridades sobre a importância da construção, agora finalizada. Olhei pra ela abriu o jogo, descobri quem enganava.

– Que cabra, que boi que nada, é tudo de caça, cateto ou guaxinim. Duvido que volte, esta granfina é contra matar bicho, Vergílio sabe, não é bobo!

O presidente da Câmara foi chamado ao microfone, avisou o distinto público que já havia apertado a mão do governador, agora reunido com o prefeito. Assunto rápido, garantiu. Logo, subiriam ao palanque. Enquanto isso…

Elogio adulador da oposição e situação irmanadas para o bem comum, aborreceu. Isto vai longe, não quero tanta paz! Prefiro o calor da intriga, a emoção do proibido!

Josina. Pra ela, Vergílio encarnava a insensatez. Com gosto, esfrangalhou sua arte clandestina e outros hábitos excêntricos. Interessado na indiscrição, esqueci do almoço.

Estória surpreendente do homem que atraiu a ira de uma, ao despertar interesse na outra. Quando der eu lhe conto tudo.

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