A Lista

No cenário macro, as universidades se adiantaram, suspendendo atividades presenciais antes do poder público decretar o isolamento. É que em Curitiba, o medo chegou antes da doença, em meados de março.

A pandemia causada pelo novo Covid-19 se alastrava a partir do epicentro no interior da China, a lista de países infectados crescia, apavorando o mundo inteiro. O cinturão da morte amedrontava o Brasil, sentia-se o peso da tragédia chegando perto. Melhor se prevenir.

Nos últimos dias, todos se distanciando, em vez de aperto de mão – toque de calcanhares, pátios esvaziados, quase ninguém circulava. Especialistas prometiam normalidade em torno de vinte dias.

Precavido, estoquei o essencial para um mês inteiro. Se depender de mim, este vírus não propaga. Na onda insistente do “fique em casa”, imaginei tudo parado, até o caminhão do lixo. Por pouco tempo, a gente aguenta. No mais tardar na Páscoa a vida retorna aos eixos, até lá se viramos no básico, evitando acumular resíduo orgânico.

Doença pouco letal, mas avançando rápido como o vento, tornava-se imperioso suavizar o pico do contágio, muito aguardado e temido.

No microcosmo, a provisão baixando, e nada de afrouxarem a quarentena. A esposa comenta:

– Está acabando tudo o que tinha.

Farejei no fim do estoque uma ardilosa oportunidade de escapar do cativeiro:

– Irei às compras.

Que bom, o taxativo “fique em casa” inicial foi logo condicionado: “se puder, fique em casa”. Sem alarde, o poder central costurou acordo com prefeitos entusiasmados com súper poderes ratificados pela corte suprema, fechando estrada, obstruindo acesso. Fervor contido na conversa, cadeias produtivas restauradas, barreiras levantadas, o abastecimento voltou a fluir silenciosamente. No bojo das atividades declaradas essenciais, o pessoal da limpeza foi escalado a continuar trabalhando.

Ainda bem, encontrarei a loja limpa e suprida.

Numa aprendizagem sofrida, descobriu-se, a contaminação se dava mais por aglomeração humana, menos pelo ato de ir e vir.

Colocaria máscara, seguiria determinações de distanciamento, ainda assim fui barrado pelos filhos. Como descobriram a intenção da minha fuga? São por demais cuidadosos, para não dizer outra coisa. No fundo dou a razão, cabelo de valente não costuma branquear. Mas convenhamos, sei me proteger:

– Respeitando orientações, não vejo risco considerável. Prometo não sair abraçando todo mundo no caminho.

Não, e não.

– Vamos então passar fome? Estamos sem fruta e sem verdura há quanto tempo.

Não teve jeito, o esperneio foi em vão. A filha decreta:

– Em casa, viu, você pertence ao grupo de risco.
– Ora bolas, não completei sessenta, nem apresento comorbidades.
– Mas falta pouco, trate de se acomodar, deixe o mercado por nossa conta.
– Parece que foi ontem quando era eu quem dava as ordens.

Abril chegou e foi embora, veio o mês de maio, e o isolamento em pleno vigor. Só o que não chega é o tal do pico.

Na sessão remota, sondei a disposição da galera:

– Se permanecemos trancados nas próprias casas, não há porque não comemorarmos junto o dia das mães.

A homenageada saiu na frente, contestando. Aguardava reação branda sem eloquência, veio argumento definitivo e categórico:

– Você é teimoso, não presta atenção no conselho dos médicos.

Soltei bravata:

– Então tá, mas ao que tudo indica, esse chove e não molha acaba se alongando pelo resto do ano. De minha parte, em agosto, quero meu almoço do dia dos pais com a família reunida. Vamos providenciando lugar espaçoso, trajes especiais.

Junho também se foi, julho avança.

Resignado no longo isolamento, coube a mim a rotina de preparar a lista semanal.

– Desça aqui, o filho está chegando, hoje é ele quem vai. Não esqueça a máscara, você já sabe, sem máscara com ele não tem conversa, nem de longe.

Atarefado até o pescoço, abandono o serviço, apanho a caneta, papel – e a máscara. Passo pela televisão ligada em pior momento, alguém soltando frase irritante: “você está lidando bem com o novo normal?”. Descarreguei a raiva no botão do controle, avisei a esposa:

– Vê se hoje não enrola, só diga o que é para comprar.
– Então anote aí de uma vez: não precisa trazer azeite, nem macarrão que ainda tem um pouco, também não vai precisar de …

Conheça Profunda Identidade

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Fonte da Imagem: Roger Zanni
https://www.bbc.com/portuguese/geral-52160207

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