A Sabiá

Florentino Fagundes, 2018

Frequentou meu quintal, viveu às minhas custas. Forcei um pouco no início, mas depois ela gostou. Adotou meu limoeiro em definitivo, guiada pelo mimo interesseiro. Tirei ela de outra árvore. Seguiu desconfiada a trilha de oferenda, rastreando atenta perigos imaginários.

Nunca houve intimidade entre nós, relacionamento pautado no receio. Aceitava prontamente minha oferta, jamais comeu na minha mão.

Justo no trágico fim, lhe faltou a malícia tão refinada pra fugir da emboscada.

Voava graciosamente, saltando de um galho pra outro, emitindo um grasnar charmoso. Melhor mesmo, quando abria o bico pra cantar. Mas tinha que ouvir de longe, senão ela escapava.

Não tive exclusividade. Ia animar outros terreiros, sei que ia. Alegrava por prazer almas distantes, demorava retornar se empoleirando feliz da vida no abrigo do limoeiro.

Inclusive procriou perto de mim. Fez ninho, chocou ovo, filhote cresceu e foi viver a própria vida.

Certo dia, cheguei a desconfiar de alguém tentando reconquistar a ave que cantava pra mim. O indício, pra não dizer prova, uma banana aberta, embaixo da buganvília. De perto, vi bicadas na fruta. Ao recolher a isca, fiz questão que ouvissem minha justificativa furada.

– Que perigo uma criança pisar nessa casca!

É que já nessa época, só tinha adulto no condomínio.

Gostava de variar. Mesmo de moela cheia, bicava a grama, arrancava lá do fundo minhoca grande. Gulosa, engolia tudo. Só quando o sabiazinho se encorpava ganhando pena, ela entregava pra ele toda iguaria retirada da terra.

Juro que não entendo uma coisa. Confesso tristeza e uma certa frustração. Bicho arisco e veloz, enxergava em mim um inimigo, nunca permitiu proximidade, apesar do afago diário, mamão maduro fatiado. Como se deixou agarrar pelo felino desocupado sei lá de quem? Se é que tem dono, gato sem coração!

Houve testemunha, me disseram que avançou cruel e furiosamente sobre a sabiá indefesa como se faminto estivesse.

O que mais doeu? Sei que o desgraçado não tinha fome, gordo bem alimentado. Fosse um leão solto na savana tudo bem sair caçando, mas um felpudo domesticado?

Cheguei depois do estrago irreparável, vi o empanturrado satisfeito, lambendo a pata lá em cima do muro. Bati o pé no chão, com força e raiva.

– Vá caçar rato, amaldiçoado!

Sorte dele que eu não tinha uma pedra!

Dolorido relatar, sobrou do banquete sangrento somente as asas da sabiá, tantas vezes acionadas pra escapar dos meus agrados. Falharam na pior hora, justamente perante o risco verdadeiro, quando garras assassinas cresceram sobre ela, silenciando alegria para sempre.

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Fonte da Figura

https://www.google.com/search?q=foto+de+sabia&client=firefox-b&tbm=isch&source=iu&ictx=1&fir=Wm22bVit1BxhsM%253A%252CanquEuv_oVyPyM%252C_&usg=AI4_-kTesyRb3egM0-XSgsF74oPeZsgf-g&sa=X&ved=2ahUKEwiGg-D524neAhUFjpAKHbWEDuoQ9QEwA3oECAAQCg#imgrc=_

 

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