Anaor e o Espelho

Anaor deixou depois de grande a sua terra e todo o resto para trás, indo habitar lugar distante. Largou tudo por soberana vontade ou foi expulso por capricho de outras forças? Noutra oportunidade, eu conto as razões da mudança. Por ora, só lhe adianto uma coisa: não foi embora porque quis.

Fartura e facilidades lhe fizeram esquecer seu jeito antigo de viver. Água abundante, despejada dentro de casa na hora que quisesse. A claridade já não dependia mais do sol, um simples acionar de botão, e tinha luz tarde da noite. Comida então, quente ou fria, a disposição.

Acabou engordando um pouco. Excesso de alimento ou falta de exercício?

Encontrou prontidão para demandas restritivas do passado, mas de estranho mesmo, sem nenhum similar na sua antiga aldeia, somente o espelho, ocupando a parede grande.

Caiu enfeitiçado perante a novidade, se admirando diante do espelho o quanto desse.

Primeiro a curiosidade norteou o seu deslumbre ao deparar-se com a natureza instigante daquela superfície vazada.

Tentou compreender o princípio do retângulo diferenciando a alvenaria como se a parede fosse oca. Mas ele, o espelho, tudo refletia, escondendo a própria essência. Decifrando o buraco estranho, olhou melhor e percebeu, havia uma área lisa causando aquele efeito.

E Anaor não tinha visto tudo.

Na verdade, o que se mostravam eram as incorreções no polimento, vestígios de sujeira acumulada. Que pena, era falsa a impressão de vislumbrar a perfeição que não se mostra.

Passando a mão, parecia vidro. Mesmo vidro transparente para vedar o vento, pôr bebida, remédio ou veneno, é visível e deixa a gente ver através dele. Esta fronteira misteriosa no entanto, duplica só um lado do mundo.

Que especulação tola essa minha, ponderou Anaor – as coisas por aqui são relevadas pela serventia imediata. A geladeira esfria, o aquecedor esquenta, o espelho mostra um outro eu vagando por aí.

Passou então a cultuar a própria imagem refletida no objeto, qual seria uma outra utilidade? Somente o espelho mostrava, e ninguém mais além de si para admirar os contornos roliços moldados pela banha acumulando.

Ao se mexer, a imagem também se mexia. Afastando-se, sua imagem também se afastava. Chegando perto, a imagem vinha ao seu encontro. Tentou dar um abraço, braços se fecharam no vazio de si mesmo.

De longe o espelho mostrava o corpo inteiro, de perto, só a feição linda em destaque. Diante de beleza singular, dali em diante, Anaor mirou somente o rosto.

Realidade robusta e clara, impossível não confiar no que via.

Alimentou a fé, conveniente e confortável, de que a nitidez do espelho reproduzia com precisão as métricas da face.

Certo dia, apareceu pinta grudada no espelho. Que mancha é essa?

Inseto morto. Dois.

Anaor foi encostando, olhar fixo, até se enquadrar no borrão perturbador. As moscas se desgrudaram, caprichosamente escondendo lhe a réplica da visão. De repente, via nitidamente um laivo maculando cada olho.

 

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Fonte da imagem

https://pt.wikipedia.org/wiki/Galeria_Nacional_de_Arte_Antiga

 

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