Angústias

Uma angustia aqui outra ali, quem não tem? Mas a razão deste conto não é explorar o desconsolo aleatório, destes que logo se dissipam em novas alegrias igualmente temporárias. Trato aqui de patologia duradoura, aflições permanentes, enraizadas no sujeito.

Ao longo dos anos, Tibúrcio se torturava em medos inventados por terceiros ou gestado na própria imaginação inclinada ao martírio. Embarcava em qualquer conversa triste, absorvendo fobia em ameaças improváveis.

Acreditava em tudo que não prestava, ansiedade antiga se realimentava em novos pavores, sempre trazendo a morte enganosa e traiçoeira.

A cada novo tormento, procurava me arrastar junto para o olho da desgraça:

– Largue mão de tudo que desta vez não tem jeito, é o fim, veja quantos estão dizendo a mesma coisa.

Ou então:

– Pare de comer isso que faz mal, parece que não vê televisão.

Revelava preocupação, assustando:

– Estes teus hábitos desregrados, ainda vão lhe custar a vida.

No começo eu reagia, tentando em vão trazê-lo para o lado dos meus prazeres:

– Vamos aproveitar, gozo com parcimônia não é pecado.

Depois desisti, ele não.

De cabeça quente encasquetando perigos, perdeu cabelo. Eu nada perdia, só ganhava, mas não era necessariamente coisa boa. A barriga se avolumava, armazenando em forma de banha meus excessos de regalo.

Agora ao assistir o noticiário, ele é novamente sugado para um novo turbilhão de profecias agourentas. Valeu-se da apreensão costumeira em cima da novidade:

– Desta vez é pra valer, veja, não se trata mais de um ou dois, é todo mundo martelando a mesma sina, será o fim com certeza.

Nova ameaça dolorida lhe atinge com toda a força. Ele, mortificado assistindo a reportagem, na qual uma pessoa indignada denuncia o mundo ao mundo. Pobre homem, pensei, aprisionado por penitências, permitiu que roubassem o seu passado, e agora deixa escapar o pouco que lhe resta do futuro.

Retraído suando frio, ele volta a reforçar seu embaraço bem nutrido:

– Desta vez ninguém escapa, será o fim com certeza.

O tempo passou voando, estou para concordar: depois de tanto júbilo, chegará o fim irremediável, cruelmente certeiro.

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