Continência

No quartel não vi moleza, só rigor e nada mais. Senti na pele a dureza daqueles dias, amarguei um ano lá dentro.

Austeridade inflexível.

A tal da continência era um peso a mais no lombo do recruta.

Vamos ponderar a situação, nem tudo era ruim na vida do boina preta. A banda marcial mandava bem nas formaturas, as missões de campo, cruelmente instigantes. E a referida obrigação não recaía só no ombro do incorporado. Exceto o coronel, todos ali se sujeitavam ao mesmo compromisso.

Para quem não sabe, a continência militar é uma saudação impessoal e obrigatória, partindo sempre do subordinado. Ou seja, mesmo você não indo com a cara do superior, teria que juntar os calcanhares, gerando barulho no atrito do coturno, mão direita espalmada, dedos unidos – dedão também é dedo, subindo em diagonal até tocar na cobertura com energia, e descer na mesma direção, com mais vibração ainda.

Julgava aquilo forçado, no entanto, os canhotos que sofriam. Imagine, produzir vigor na trajetória inclinada com o braço ruim. Sem contar as trapalhadas dos canhos no começo, utilizando membro errado, e dê lhe bronca.

A vantagem: só precisava reverenciar a mesma pessoa uma vez por dia. Exceto o comandante do batalhão. Este sim merecia a continência em cada ocasião que cruzasse com ele, mas aí era tranquilo, despachava numa ala reservado do prédio central. Quando saía do gabinete, caminhava em passos lerdos, dava tempo para desviar. E era disputado, os colegas de farda faziam questão de passar se esfregando no chefe. Fácil escapar despercebido.

Ora, estes graduados não vão lembrar de tanto soldado raso andando para lá e para cá, concluí. Então decidi: continência de hoje em diante, até dez da manhã. A partir daí, fica subentendido que eu já cumprimentei todo mundo.

Nem sempre funcionava.

Você que sabe interpretar a natureza humana, talvez consiga explicar a raiz desta minha rebeldia, diante de atribuição tão pequena.

Fazia uso do relógio no pulso, controlando horário. Lá vem o sugador insuportável, ainda bem que estou isento da obrigação da continência, dado o avançado da hora.

– Dormiu comigo milico?

Choque vigoroso do couro contra o couro, resposta padrão do Exército, com leve timbre de desdém:

– Não Senhor!

Teve votação, perdi por pouco o título de melhor soldado por conta da mania de condicionar por conta própria a responsabilidade da continência em função do horário. Inclusive, recebi aquilo que nas empresas o pessoal chama de feedback: você é cumpridor dos deveres, mas um tanto descuidado em detalhes pequenos, porém importantes, como no caso em que não prestou continência ao capitão em trânsito pela unidade.

Na ocasião específica, juro, não foi indisciplina. Como poderia ter visto as dragonas do homem na escuridão do ambiente, se não enxerguei nem o distinto assistindo televisão no fundo da sala escura? Fui advertido pelo ilustre que emergiu da sombra ralhando, justo quando acreditava seguir rigorosamente o protocolo ao me dirigir ao tenente visível pela claridade vinda de fora.

O pendão da má fama entretanto, selou para sempre o meu destino na caserna.

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https://pixabay.com/pt/illustrations/soldado-militar-sauda%C3%A7%C3%A3o-996536/

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