Dores Latejantes

Roque faltava ao trabalho com frequência, alegando dores no corpo inteiro.

Enforcava o expediente para visita médica, desguarnecendo a repartição.

Os colegas recriminavam tanta ausência, insinuando que tais sintomas eram tão falsos quanto os atestados se empilhando no setor de pessoal, abonando fugas repetidas do malandro.

Ele se defendia:

– Dói, de verdade.

O mundo se moderniza, automatizando rotinas, e principalmente, tornando tudo leve e mais suave. Novos equipamentos chegaram facilitando o serviço, puxados pela necessidade de melhorar a vida de quem penava, minimizando a fadiga corporal.

Ao que parece, a situação piorou para o Roque.

Em vez das facilidades trazerem melhora, a penúria aumentou. Agora Roque focava a dor intensa, antes vagamente retratada.

Quem não sofria, perguntava: Roque não tem vergonha nesta cara deslavada?

Apesar do sofrimento alardeado, exames de toda sorte não mostravam nenhuma irregularidade, nem sinal de avarias em tendões supostamente doloridos. A tecnologia desmascarava o engodo, tudo não passava de burla e fraude do espertalhão contumaz:

– A ciência não mente, e desmente os mentirosos.

Sim, mentirosos no plural. Seguindo Roque, outras vozes descreviam dor idêntica.

Só depois de muito disse-que-disse, a medicina cruzou depoimento, forjou nome e sigla para as alegadas dores de quem sofria.

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Fonte da figura

Figura Homem Carrinho Dor Nas – Foto gratuita no Pixabay

 

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