Dorinha

O conto A guerra do Pente agradou quem leu, mas foi rejeitado pelo Facebook.

Desta vez foi diferente, ao que parece o algoritmo barrou o conjunto da obra, em vez de implicar com palavrão solto ou frase imprópria como de outras tantas vezes em que tive texto censurado.

Como disse, não faço ideia o que de fato incomodou, recebi mensagem vaga. Seriam os dissabores da História ou as opiniões do Juvenal? Contemporâneo do conflito, carregou nos adjetivos, mas e daí, meu personagem não pode expressar o senso comum de uma época?

Por ironia, meus leitores pediram mais. Toda curiosidade acabou girando em torno da Dorinha, filha de Juvenal, que ofuscou o nosso herói curitibano. Dorinha daqui Dorinha dali, e do Juvenal, coitado, ninguém quis saber uma vírgula. Também desaprovam a língua afiada do homem? Entre o heroísmo e o trivial, o corriqueiro dominou a preferência.

Eu, o narrador do episódio, também passei batido. Será que estão confundindo narrador com autor? Fiquei animado quando surgiu a pergunta ‘onde se conheceram’, mas fui relegado na sequência da interrogação: o namoro de Dorinha progrediu?

Pois bem, vou lhes dar o que pediram.

Conheci Dorinha na biblioteca Pública do Paraná. Eu a vi concentrada, estudei a situação. Estaria acompanhada por alguém atrás da estante?

Área limpa, puxei assunto:

– Pesquisando?

Calculei o seguinte: ou ela realimenta a conversa ou me dá um fora. Nem uma coisa nem outra, respondeu serenamente:

– Pesquisando.

Uma nova pergunta soaria inconveniente, e aquele ambiente silencioso, próprio das bibliotecas, não favoreceu minha abordagem. Saí de fininho mas de cabeça erguida. O nome na folha foi a deixa:

– Então tchau Doralice.

Fingindo ler, acabei me distraindo. Quando dei por mim, ela em pé ao meu lado, sorrindo. Um sorriso autêntico e bonito, quase invisível porém. Exibiu o manuscrito:

– Terminei.

Entendi que o certo a fazer, seria propor alguma coisa:

– Vamos tomar um suco?

Uma bebida leva a outra, quando vimos entardeceu. Doralice sugeriu que eu a levasse para casa, ao sinalizar medo de andar sozinha à noite.

Havia uma distância a percorrer, com sombras no caminho. Chegando em frente ao portão, ela cobrou e eu prometi: ligaria noutro dia. Lembrei a ela, poderia fazer o mesmo, tínhamos trocado telefones. Despediu-se:

– Então vou entrar, boa noite.

– Boa noite assim de longe?

– Estão espiando a gente por trás da cortina, Polvo.

 

Leia o texto censurado A guerra do Pente por meio do link

https://florentinofagundes.com.br/a-guerra-do-pente/

 

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