Dormir, Santo Remédio

Planejou dia, local, horário – oito da manhã. Em ponto, um minuto antes ou depois, não serviria.

Agiu em segredo, bom estrategista não revela intenção. Trabalhando quieto, removeu inconsistências do arquitetado, aparou erros, ajustou alguns enganos. É assim que se atua, para a boa execução do concebido.

Adquiriu o necessário, testou funcionamento, treinou habilidade. O primeiro ensaio assustou, não o suficiente para abandonar a iniciativa. Justificou: decerto que nem tudo serão flores perfumadas, espinhos trarão dores no processo.

Até aqui tudo certo, nada feito porém. Segue o projeto.

Na última noite, redigiu cartas. Para a esposa e o filho, para a filha e o irmão, para a cunhada que mereceu inclusive um agradecimento especial pela acolhida, e um pedido de desculpa, por conta da bagunça. Entendesse, não era por querer. Tentei cuidar o máximo, frisou, mas do inevitável ninguém escapa. Reservo aí esta quantia para bonificar a faxina.

Tratou de isentar a todos, agia por soberana vontade. Se depois de tudo, restasse um único direito, invocava: não queiram saber por que fiz o que fiz. Pela flexão do verbo, “fiz”, percebe-se que ele acreditava piamente no sucesso da missão.

Merecia dormir, tentou, não conseguiu. Fazer o que, plano perfeito não existe.

Deu meia noite. Não haveria mais dias a contar, apenas horas, oito horas. Dormir agora? E se perdesse a hora? Inclusive, talvez um sonho acalentasse ilusões, melhor não arriscar. Outra questão surge de repente, e se bem no instante resolvessem entrar no banheiro? Agir no quarto? Nem pensar, não foi este o planejado. Uma coisa era sujar o piso cerâmico fácil de lavar, outra bem diferente seria manchar para sempre o carpete novo da cunhada.

Nada de cochilo daqui em diante.

No avançar da madrugada, decidiu se deslocar para o banheiro. O certo é esperar lá dentro, deixando a porta destravada. O incômodo já bastava, mais despesa no arrombamento de fechadura seria demais, o dinheiro provisionado mal dava para a limpeza. Quem ficasse amargaria dificuldades naquela casa, melhor não abusar de quem o recebeu tão bem.

Cinco horas, seis horas. Enfim, depois da longa noite o dia chega, o relógio crava sete horas.

Agora minutos, sessenta minutos. Checou uma vez mais o equipamento, em ordem. Se necessário, acionaria mais de uma vez, o zelo lhe permitia tentativas sequenciais.

Atormentado pelo pesadelo apavorante, ainda meio inconsciente, bradou:

– Morri!

Acordou na posição incômoda e consultou o relógio:

– Meu Deus, perdi a hora! O que faço? Cadê o berro? Preciso destruir aqueles bilhetes ou morro mesmo, de vergonha.

Ouviu a voz do irmão:

– Você não perdeu a hora, ela ainda não chegou.

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Fonte da Imagem
https://www.imdb.com/title/tt0082111/mediaviewer/rm1911827200

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