Eis que o Gato Voltou

E desta vez, chegou perto e ali ficou, esparramado no chão durante minhas voltas na garagem. Pareceu inclusive mais manso, humilde e relaxado. Senhor de si porém, exalava uma discrição segura e serena.

Se nutria arrependimento, não deixou transparecer. A não ser que eu, entretido no exercício, não tenha prestado atenção em pequenos sinais de remorso.

Tão diferente daquele gato lá do conto A Dúvida, que nem parece o mesmo. Diferente na atitude, bem entendido. Sua aparência física continua exatamente a mesma. Na ocasião se mostrava arisco, patas dianteiras em posição de fuga. Ultimamente, basta me ver já se aproxima, trazendo a lembrança amarga do perigo invisível que reina lá fora. Fica junto o tempo inteiro, aninhado no piso, enquanto eu giro ao redor do carro.

Do jeito que me acha, das duas uma: tem faro aguçado ou visão boa.

Na escuridão da noite todos os gatos são pardos, afirma o velho ditado, mas eu tenho certeza, não é um gato qualquer, é o gato da vizinha, vítima do Covid. Além do mais, faz questão de se tornar visível, plantado embaixo da claridade. Se a mudança aparente no comportamento dele é verdadeira ou ilusão dos meus sentidos, afetados ainda mais pelo isolamento social que já dura mais de um ano, não posso garantir.

Antes de prosseguir, vamos esclarecer uma coisa, aos leitores do futuro. Estamos no ano de 2021, amargando uma epidemia que assola o mundo inteiro, causada pelo Covid-19. Inclusive, desde quando a dona do gato contraiu o vírus maldito, que ele se sente órfão. Estando aqui para falar do gato, não vou misturar assunto. Nada mais direi sobre o destino da dona dele, nem pergunte. Posso até escrever outro conto detalhando o drama dela, as consequências danosas agravadas pela doença silenciosa e cruel. Hoje, nosso personagem é o gato, inume a esta doença que ataca humanos, mas igualmente afetado pela dor da solidão.

Então, voltemos ao gato. Ficou sumido um tempo, pensei que jamais voltaria, mas voltou. Vejo agora serenidade naquele olhar, antes arredio e desconfiado. Eu também mudei. Chego a sentir no coração, antes carregado de malícia e raiva, uma inclinação genuína de perdoar os supostos ataques à sabiá

Inclusive, quando eu contei o episódio em A Dúvida, aventando a suposta maldade felina contra A Sabiá, uma leitora saiu em defesa do bichano. O argumento dela foi na linha do instinto, se ele de fato matou o passarinho, não o fez por mau, caçar era da natureza do bicho, desbancando portanto a minha tese de que o felpudo domesticado e de barriga cheia deveria melhor se comportar diante da ave silvestre.

Pois bem, finalizada a história deste gato carente, se restou dúvida, leia os textos elencados a seguir. Ah! Outra coisa: quer saber mais a respeito da dona do gato, peça nos comentários.

 

Leia o conto A Dúvida pelo link: https://florentinofagundes.com.br/a-duvida/

Leia o conto A Sabiá pelo link: http://florentinofagundes.com.br/a-sabia/

 

Conheça também: Profunda Identidade

Saiba Mais

 

Fonte da figura

Problema Clipart Felino Gato – Gráfico vetorial grátis no Pixabay

 

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