Ilhas parte I A Convocação

Desci entregar a chave bem na hora da algazarra. Um militar, teso e pisando firme, deixava o ambiente alvoroçado.

Missão fácil do mensageiro.

Hernan, atendente da recepção, foi convocado para a guerra em pleno expediente, e a euforia tomou conta do saguão. Com o bilhete premiado na mão, Hernan era o mais feliz entre os alegres. Não teme levar tiro?

A viatura lá fora aguardava o rapaz, ou teria chance de se despedir da família?

Hernan havia me confidenciado um pouco antes a vontade obstinada de sua mãe para que ele se firmasse no emprego, seguisse carreira naquele hotel famoso. E agora as engrenagens do destino fazia dele um combatente. Para ele, um prêmio, e para sua mãe?

A esta altura, devo confessar minha total e completa ignorância sobre a história do litígio e a geografia da disputa. Ignorava também a sociologia dos argentinos, fermentando por longos anos o desejo em reaver aquele território tantas vezes invadido, e também abandonado. O conflito armado revelou ainda para mim, nomes diferente para as ilhas em disputa.

A realidade escancarava ambição em todo lugar. O Reino Unido prometia endurecer o jogo, a Thatcher queria as Falkland de volta.

O triunfo pavimentado por Galtieri na conquista das ilhas, poderia em breve se tornar um espinheiro.

Agora ali no balcão, Hernan expressou o sentimento nacional de hostilidade aos ingleses, bradando:

– Estes porcos terão que passar por cima do meu cadáver, lutarei até a morte.

Aí o gerente apareceu, imbuído de autoridade, impondo ordem na casa:

– O que sucede?

A animação se dissolveu como fumaça. O último suspiro de entusiasmo, baixinho e constrangido, saiu dos lábios da moça que trazia no peito a tarja dourada com o nome de Sofia:

– Estamos felizes senhor Martín.

Hernan sussurrou para a colega:

– Nossas Malvinas de agora em diante serão Malvinas para sempre.

Do outro lado do mundo, a Dama de Ferro tinha planos diferentes. Enxergou na guerra a mesma artimanha de se agarrar ao poder, por ora bem orquestrada por Leopoldo Galtieri.

Entre as garras manipuladoras dos governantes, eis ali o jovem Hernan. Transfigurado pelo ódio sustentado a propaganda, teria alguma chance?

Hora de partir.

Quanto a mim, vou gozar o resto das minhas férias onde tem calor e reina a paz.

Gostou do conto? Leia a parte II por meio do link

Ilhas parte II Rojão de Fogo – Florentino Augusto Fagundes (florentinofagundes.com.br)

 

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Fonte da Imagem

Ilhas Malvinas – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

 

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