Ilhas parte II Rojão de Fogo

Fiquei aborrecido ao chegar naquele hotel. Não tem mesmo nenhum lugar de frente?

Não sei você, para mim, se ao abrir a cortina, não aparecer o azul do mar, é o mesmo que não estar na praia.

Ainda assim, escancarei as duas camadas de pano, bem na hora em que o velho só de bermuda na cadeira de rodas era posicionado na calçada pelo segurança, de uniforme. Em vez de água abundante e garotas em biquínis, eis que vejo um ancião e seus vassalos.

Não exagerei no julgamento demasiado. Aquele senhor parecia mesmo predestinado a mandar. Não conseguia escutar, mas intuía pelos gestos que fazia para o rapaz ao lado e para a moça em sua frente, já posicionada para alongar os músculos do velho.

No instante exato em que virei-me para consultar o relógio sobre a mesa, o trovão apavorou, rompendo a tranquilidade. O estampido intenso estilhaçou a vidraça. No susto, meu corpo congelou, nem vi a hora.

Ao recuperar-me do baque, dei pelas lascas de vidro espalhadas pelo quarto.

Que sorte ter virado as costas.

Então lembrei-me da má fama do lugar, especulei atormentado. Eita Rio de Janeiro, será bomba ou bala perdida?

Não seria uma coisa nem outra. O estrondo rasgou o céu de fora a fora, nenhum canhão teria esse alcance, e bomba não explode caminhando pelo espaço.

Recuperei os movimentos, desci a escadaria, ofegante: será que o prédio vai cair?

A mesma atendente que havia me negado a paisagem marítima, esclareceu a causa do barulho:

– Não se apavore, foi avião da Força Aérea, a FAB.

O gerente tinha problema extra a resolver, levantava a dimensão dos estragos, murmurando desolado:

– Quero saber quem vai arcar com o prejuízo, esses F5 não deveriam voar assim quebrando tudo.

Quem cumpre expediente que trabalhe, estou em férias, vou sair lá fora garimpar informação.

Os carregadores de mala faziam piada da situação, zoando de um colega:

– O Ceará ficou branco de medo, nunca viu avião de caça?

Logo canalizaram a conversa para o assunto latente daqueles dias, a Copa do Mundo na Espanha em breve, a Guerra das Malvinas em curso. O nordestino resumiu o sentimento coletivo:

– Torço que a Argentina ganhe a guerra, que o Brasil vença a Copa.

Buscando saber mais sobre o voo incomum dos aviões de combate, afastei-me da portaria. Logo adiante, com quem eu topo? Com o velho mandão. Um vizinho dele, também se aproximando, fez pergunta. O velho, todo animado, respondeu:

– Claro que escutei, até um surdo escutaria.

O motivo? Ora, o Brasil entrou na guerra, o que mais poderia ser?

A hipótese da guerra despertava euforia. Tanto é que o segurança, se achou no direito de atravessar a conversa:

– O Brasil entra na guerra a favor de quem será?

O velho respondeu com mais perguntas:

– A favor de quem poderia ser? Não somos americanos?

O entusiasmo contagiava, relaxando inclusive a hierarquia formal e rígida que eu havia presenciado lá de cima. Comemorando assim, como se guerra fosse bom? Esquecem as consequências, dores e mutilações? A favor dos argentinos, havia a ilusão de reconquistar uns palmos de terra. Já meus compatriotas aqui de Copacabana, o que teriam a ganhar? Não sabem que estes aviões queimam uma gasolina lascada e na guerra morre gente?

O vizinho, pouco afetado pela flama contagiante, quis saber o que o Brasil lucraria entrando naquela guerra. Resposta seca:

– A vitória é o melhor lucro que existe.

Uma senhora apareceu no jardim da mansão, portando novidade:

– O brigadeiro Alvarenga confirma vossa tese, foi mesmo um Rojão de Fogo.

– Eu não disse? Não era treinamento A Aeronáutica não romperia a barreira do som em cima da gente se não fosse um combate de verdade.

O conflito armado entre Argentina e Inglaterra respingava forte no imaginário dos brasileiros. Apesar da serenidade das autoridades, reafirmando repetidas vezes que o Brasil se manteria neutro, parte do povo queria briga.

Parei fingindo contemplar o Corcovado. Fico ancorado aqui, onde tem notícia quente.

A mesma senhora logo reapareceu, atualizando a cronologia dos fatos:

– Alvarenga acaba de confirmar, a FAB interceptou um avião britânico Vulcan no espaço aéreo brasileiro, mas não era invasão não era nada, não vinha em missão de ataque.

Lendo anotações num papel, continuou:

– Disse que o piloto britânico pediu My Day.

O velho reagiu:

– My Day? Passe-me de uma vez esta folha.

O texto confirmando a paz, atiçou a ira do velho, e os empregados, percebendo a brusca mudança de humor, se encolheram na posição de subordinados, assistindo apreensivos o chefe praguejar:

– Não é my day, criatura de Deus. É Mayday! Por falta de combustível, o gringo solicitou MAYDAY!

Gostou do conto? Leia a parte I por meio do link

Ilhas parte I A Convocação – Florentino Augusto Fagundes (florentinofagundes.com.br)

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Fonte da Imagem

Xh558 Vulcan Avro O – Foto gratuita no Pixabay

 

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