Inconveniência

Museu para mim é quase sagrado, lugar onde o passado se encorpa, a história ganha vida. Entrando num, esqueço de ir embora.

Museu abraça Arte, Ciência, Costumes, e tudo o que você imaginar. Engana-se quem rotula museu como depositário de coisa velha, guardar vestígios do passado é só uma fração da tarefa. Também se ocupa em difundir as evidências do presente, assim como especular possibilidades futuras, agregando novos conceitos, já enveredando no terreno pantanoso das previsões.

Nem tudo é belo dentro deles, mostram às vezes realidade chocante, exibem coisas de arrepiar. Como não se escandalizar num tour pelo museu de História do Gulag de Moscou, visitando o museu do Holocausto em Jerusalém, passeando pelo Parque Memorial da Paz em Hiroshima?

Aprecio tudo com olhares de um leigo deslumbrado. Seja uma sucata em desuso, imaginando a época em que foi chique e disputada, um quadro bem conservado da Renascença ou especulações sobre o futuro do mundo igual aquelas lá do Museu do Amanhã no Rio de Janeiro.

É no museu que vemos quanta coisa ultrapassada já estampou dias de glória.

Museu não esconde nada. Exibe irreverência que distorce e provoca, denuncia os horrores praticados em nome de ideais grandiosos, escancara a maldade miúda e esquecida.

Desta vez foi diferente, casa pequena, só gente realmente devotada. Você sabe, lugar famoso atrai falsos interessados. Graças ao anonimato do endereço, poderia ficar em paz o tempo que quisesse admirando a peça, uma raridade, feita de ouro puro. Utensílio bonito, material nobre, acabamento fino e polido, acervo impecável.

Fui abatido pela curiosidade impertinente: quis saber se tinha utilidade. Nada escrito identificando funcionalidade em língua conhecida, apelei para o guarda. Sapequei a pergunta naquele meu inglês que alguns conhecem, a resposta veio na língua dele. O ancião de lábios rosado desandou a falar, eu nada entendia, mas no final tudo se esclareceu, no gesto. Ao contorcer-se sobre aquilo que protegia, saltou-me aos olhos a nefasta serventia: não era só enfeite. Então a linda amostra revelou-se de repente inconveniência repulsiva. Informação cruel.

O asco cresceu, bati em retirada. De tão afetado imaginando aquilo em uso, sujo, encalacrado e nojento, saí sem agradecer o senhor tão atencioso. Espero que tenha entendido a urgência da minha fuga.

Revoltado pela ruína do dia, me perguntei lá fora na liberdade fresca da rua: onde já se viu desperdiçar recurso bom em coisa tão repugnante?

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