Morro do Ouro Parte I Terreno Firme da História

Fica em Apiaí, interior de São Paulo, meu refúgio preferido. Ao chegar, ainda na rua feliz da vida, contemplo a mata verde revestindo a serra.

Não é só a beleza do entorno que faz bem, experimento uma alegria incomum, ao desfrutar afetos acolhedores dos parentes e amigos.

Quando o tempo favorece subo o morro, íngreme, até em cima no mirante. Convidativo apreciar o mundo do alto, a cidade lá embaixo. A estrada não é para qualquer carro, o jeito é seguir andando. De uma altura em diante as trilhas se ramificam, num emaranhado de opções. Dependendo do vigor de quem vai junto, escolho um carreiro suave ou resvaladiço, numa aventura com adrenalina intensa ou suave emoção.

A idade faz de mim um cauteloso. Procuro olhar bem onde piso, atento aos perigos. Para início de conversa, o subsolo é oco. Imagine, quase duzentos anos de lavra consecutiva solapando a montanha, aquilo arrisca afundar engolindo a gente. Outra ameaça, um pouco mais provável, habita a superfície do terreno. Um tropeço descuidado numa jararaca, camuflada na folha seca, pode decretar o fim da linha antes da hora.

Revisito a boca daqueles túneis, úmidos e gelados. Inspeciono atentamente, como se fosse explorar de novo. Vestígio só de humanos no chão pisado, bicho evita o movimento. Nada obstruindo a passagem, ao que parece nem aranha se cria naquelas bordas. Jamais entrarei novamente nas covas assustadoras, então por que tanto cuidado? São penitências tardias da imprudência do passado. Só de lembrar arrepia.

O que machuca também inspira. Tal como a inundação barrenta drena o curso do rio assoreado, facilitando o fluir suave da água limpa, a lembrança dolorida molda os melhores personagens. Uma breve amostra, em Vergílio e O Tesouro, este publicado no livro Segredos de Nair.

Juntando retalhos da História, especulo: tem ouro intacto nas profundezas da jazida abandonada. A concessão pulou de dono em dono, até cair em hora errada, nas mãos dos japoneses. Acontece que o Japão escolheu se alinhar aos Nazistas durante a Segunda Guerra, e inimigos no combate não seriam bons parceiros nos negócios, então foram expulsos de repente, largando tudo para trás. Quanto mais fuço, mais dúvida aparece. Ao menos tentou-se nacionalizar a mineradora? Os empresários tiveram opção de vender o que compraram? Algum grupo se interessou em tocar a atividade, decerto lucrativa? Nos registros pesquisados, pouca resposta encontrei. O fato é que a mineração iniciada de forma aventureira e precária pelo foragido das Minas Gerais, em meados do século dezessete, tendo como trunfo um batalhão de escravos cavando sob ordens severas, prosperou e resistiu ao Brasil Colônia, ao Império e a República, até sucumbir em definitivo em consequência de uma briga indireta entre dois povos, que nunca trocaram tiros.

Virou ponto turístico, indícios daquela Era fazem parte da atração. Entre os resquícios do esplendor do passado, cilindro metálico enorme, parecendo um silo tombado ao relento. O caldeirão gigante ganhou nova utilidade, decorando o parque.

Antes não era assim, lugar limpo e conservado.

Ao menos nisso, se concretiza a perspectiva do velho, fruto da escravidão, que conheci quando galguei o Morro a primeira vez. Ocasião em que experimentei a vivência traumática de se perder no labirinto de túneis. Naquela tarde fatídica, o cidadão levantou hipótese, nutriu meus pensamentos, conduziu a boa ação. Mas aí, já é outro episódio.

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Fonte da imagem

https://pt.wikipedia.org/wiki/Apia%C3%AD#/media/Ficheiro:Vista_parcial_do_centro.JPG

 

 

 

 

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