Morro do Ouro Parte II Um Helicóptero no Caminho

Não se falava noutra coisa, nada mais repercutia. O único interesse do povo: a construção da fábrica, o andamento da ferrovia.

– Em Apiaí sobra emprego, mas a carestia come tudo, só o aluguel de meia água leva todo o pagamento.

– Nem digo, para lavar um lenço estão pedindo mil cruzeiros.

Diante da concorrência grande, em Ribeira, o boato que ouvi por uma casualidade fortuita, pouco repercutiu. Quando descobriam onde o tal cidadão havia encontrado uma panela cheia de ouro ao fincar um esteio, desviavam o assunto:

– Por falar em Apiaí, andei sabendo que a CCC vai mudar o nome para CCI.

Siglas não me interessavam, pus a monareta na estrada, pesquisar por conta própria. Bons resultados surgiram.

Uns atestavam que o próprio espírito de quem enterrou a fortuna se revelou na escuridão da noite mostrando a posição do cavedário, outros preferiam acreditar na sorte, os mais incrédulos duvidavam até da força do acaso:

– Isto tudo, não passa de conversa. Que tem ouro enterrado tem. Com equipamento adequado e paciência vá lá, mas convenhamos, descobrir assim do nada, sem estar procurando…

Imaginário popular invocando aparições do outro mundo ou rara sorte, de um jeito ou de outro, havia um milionário feliz da vida.

– Semana passada, apareceu desfilando numa Aero-Willys cheirando nova.

– Ainda ontem foi em Paranaí com ela, todo soberbo.

– Que nada, já é outro, desceu de Itamaraty novinha em folha.

Oba, estou chegando perto, o zunzunzum está crescendo.

No Alto da Tenda, aglomeração de gente nos dois lados da avenida. Automóvel ou caminhão, indo ou vindo, estacionado. Quem passava, encostava. O que será chama atenção?

Um helicóptero.

Bem na hora, homens aproximavam-se dele. Ao redor, curiosos falantes:

– Não entro nem morto numa geringonça dessa.

– Melhor ser pobre do que cair dum monstrengo desse.

– Pois se me pagassem bem …

Um descuidado se aproximou, foi espantado com gestos. Perguntei para o sujeito ao lado:

– É o sortudo da panelada de ouro?

– Quer dizer que não sabe? É o Camargão, dono da Camargo.

Questionei qual era o Camargão, se esquivou:

– É um daqueles entrando no avião sem roda.

Enquanto não decolou, fiquei ali engordando a plateia.

Primeiro o motor urrou, girando pás.

O povo se emociona:

– Não viajava num troço desse nem ganhando, mas bem que aceitava um ventilador assim, com ele não tem calor que aguente.

– Até isso eu dispenso, veja a poeira infernal que levanta.

– E haja dinheiro para pôr gasolina.

Depois a fuselagem se moveu, ganhou altura, embicando em direção ao Morro do Ouro, fazendo-me lembrar da angústia pregressa, da vontade faminta de seguir adiante no propósito atual.

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