Morro do Ouro Parte IV O Passado, Alicerce do Futuro

Miudinho requisitou:

– Topa sondar o Morro do Ouro?

Sim, respondi, sem ter a mínima ideia da causa que aderia. Então ele perguntou:

– Tem farolete?

Acabei me enrolando em explicações inúteis, tinha em casa ali não tinha, o Miudinho atalhou:

– Fica frio que já entendi, toma aqui segure esta lanterna.

A suposta utilidade da foice na mão do Miudinho era evidente, limpar o caminho ou enfrentar alguma cobra, mas lanterna em pleno dia?

– Vamos voltar só de noite? Neste caso, preciso avisar a mãe.

– É para alumiar as escavações, melhor não envolver tua mãe nisto.

Apesar de pequeno, acumulava idade, demonstrava liderança.

Já na saída, querendo competir, perguntei se ele sabia escrever. Respondeu meio ofendido:

– Estou terminando o ginásio.

Logo depois, quis saber outra coisa:

– Miudinho é nome ou apelido?

– Tá na cara o que é.

Quando a estrada estreitou de vez, deu instrução:

– Vou na frente, fique atrás, e cuidado para não derrubar esta lanterna.

A baixa estatura nossa facilitou a incursão galerias adentro, na viagem demorada. Morosa por dois motivos. Primeiro, tomamos a trilha oeste, mais distante porém melhor, nas palavras do Miudinho. Só contou porque instiguei:

– Você apontou o Morro do Ouro para um lado e estamos indo para o outro lado.

– Sei o que faço, seguindo a rota certa. Como você subiria se agarrando, carregando o farolete?

Segundo, paramos para conversar com o velho. Vi aquele vulto, parecendo um frade pela roupa, estanquei assustado:

– Olhe, não é perigoso?

– Não se afobe, é o Negro Juca.

– Não seria o Júlio Loco?

– Eu disse Negro Juca. Júlio Loco é um louco que até você conhece. Negro Juca vive isolado, é um preto do quilombo.

– O que é quilombo?

– Deixa pra lá.

Negro Juca parou, cedeu espaço:

– Passem adiante, vocês têm fôlego melhor.

– Será que chove hoje seu Juca?

– Se chover, a capa está aqui mesmo.

Mexeu os braços agasalhados, as mãos escondidas, balançando a capa negra como a própria pele. Do nada, começou falar de si, descendente de escravo que nasceu livre. Assim como o próprio pai, haveria também de morrer livre.

Ansioso em mostrar conhecimento, iniciei uma pergunta:

– Seu pai foi beneficiado pela qual …

Miudinho cortou:

– Só escute.

Tinha por devoção e penitência perambular pelo Morro do Ouro onde seus antepassados morreram soterrados no grande deslizamento. Cerimonioso, moveu o chapéu, declamando:

– Sou pobre porém livre, graças a Deus.

Eu era bobo mas nem tanto: pobre tem por acaso dinheiro para comprar uma capa dessas? Outra coisa que pensei mas não falei, porque Miudinho já estava nervoso comigo: esquisito, tanta devoção assim pelos mortos que Negro Juca nem conheceu.

Quando terminou sua história, Miudinho deu trela:

– Seu Juca, diga para este misquim suas ideias para o futuro.

– Não querendo fazer acinte para quem vem de fora, mas Apiaí tem vocação industrial. Veja a lengalenga desta tal fábrica de cimento que sai, não sai. Acaba saindo, mais dia menos dia, é assim que a banda toca. Então porque não aproveitar o embalo e reativar esta mina, extrair o metal das entranhas da terra. O minério gera emprego que o povo precisa. A ecologia tem que dialogar com o progresso, o progresso tem que respeitar a natureza. Inclusive, poderia se pensar na concretagem das galerias desativadas, a cimenteira saindo do papel, a matéria prima taí. Isto vai atrair interessados dispostos a pagar por um passeio pelo interior das furnas.

Diante do meu espanto, se apressou em justificar:

– Saiba que a tendência de turista pagar ingresso para entrar em gruta já é fato na Caverna do Diabo.

Na esquina no fim da tarde, Miudinho propôs:

– Vou embora por ali, você segue por aqui. Está vendo a casa da tua tia? E controle a língua, o que aconteceu no Morro, fica no Morro.

Apressado, concordei:

– Pode deixar, não conto para ninguém que se perdemos nos buracos.

– Vale o mesmo para quem nos encontrou. Boca fechada sobre tudo que viu e escutou. E antes que vá, me devolva o farolete.

Hoje, relembrando o episódio, fico a especular quanta coisa poderia ser transportada despercebida sob o disfarce daquela capa do Negro Juca prevendo chuva todo dia. Já na época, numa sutil troca de olhares, pesquei cumplicidade daqueles dois. Qual seria afinal a parceria entre Miudinho e o velho com destreza de cão farejador pelos labirintos subterrâneos da mina de ouro abandonada?

Conheça também Profunda Identidade

Saiba Mais

Fonte da imagem

https://www.bing.com/images/search?q=velhos%20negros&qs=n&form=QBIR&sp=-1&pq=velhos%20negros&sc=0-13&cvid=AB16B12CD8114F88B2BA236E4E7263D0&first=1&scenario=ImageHoverTitle

 

Related posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *