O almoço

Cheguei na hora, havia gente esperando. Fiz um aceno discreto a quem me viu, e submergi atrás da mesa mais distante.

Tanto espaço sobrando, convidaram pouca gente? Quem disse que o lugar precisa encher?

Cada um no seu quadrado, num silêncio carregado. O desconforto trouxe a pressa: que isto termine logo.

Aquilo foi ganhando movimento, e quem chegava, rastreava espaço vazio. Os mais atrasados não tiveram a mesma chance. Na escassez, o compartilhamento acontecia, a contra gosto.

No aperto, minha mesa acanhada, também encheu:

– Com licença, mas infelizmente, esta é a última cadeira vaga.

De início, uma conversa cerimoniosa e contida, depois animada e sonora.

Na hora de falar, o dono do restaurante teve que tilintar copo para atrair a atenção dos enturmados. Eu então, numa conversa animada com quem, por falta de opção, sentou comigo, não ouvi de cara o apelo de silêncio.

Explicou o porquê do convite pessoal. Aceitei o argumento para ausência de cônjuges, mas a companheira ao lado, maliciosa e arguta, viu outra estratégia enrustida na decisão.

Tanta perspicácia, deve se converter em sucesso.

Seria breve e foi de fato. Um rápido histórico de sua trajetória pelas cozinhas famosas do mundo, de aprendiz a chefe. Agora exibia o seu próprio espaço que no outro dia abriria as portas para receber a imprensa, ocupando lugares hoje reservados por gente importante da cidade. Reforçou:

– A boa gente de Curitiba conhecendo em primeira mão um novo conceito de servir.

Enquanto me sentia um verdadeiro baiacu cheio de ar pela reverência, alguém se mostrou mais realista, sussurrando ao meu ouvido:

– Somos cobaias.

Na descrição do cardápio, o prato pousou em nossa frente numa coreografia perfeita. O pessoal foi bem treinado, até aqui nota dez.

Tampas foram removidas e um tiquinho de nada se revelou. Só beleza? Pensei que era prato guarnecido.

O empresário esclarecia detalhes sobre temperos e aromas, textura e valor nutritivo, nuances de sabores peculiares, e sei lá mais o que. Perdi o interesse em tanta explicação, só ouvi o finalzinho: bom apetite. Precisaria apetite para dar fim nesta miséria? E por que vasilha tão grande para quantia desprovida?

Pouca coisa, porém enfeitada, uma folha verde em cima. Estou faminto, limpo tudo em duas garfadas, três no máximo. Nem o vegetal escapará. Se está aí é para ser comido. Mesmo tendo gosto ruim, vou engolir. Veneno não deve de ser, enfeitando comida. Aliás, começarei por ele, fazendo papel de salada.

Melhor pensando, irei no ritmo da colega, que até por reverência, haverá de fazer pequenos bocados. Almoço grátis, queria o que? Fomos chamados para apreciar degustação, não encher a pança. Ainda assim, bem que poderia …

Não tive tempo de externar meus pensamentos. Quem demonstrou desagrado acintoso em sentar comigo, agora cheia de iniciativa, se adiantou:

– Saindo daqui aonde vamos almoçar?

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Fonte da Imagem

Mulher almoçando em casa Foto Premium | Foto Premium (freepik.com)

 

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