O Banquete

Fui atender quem pediu amparo e levei pedrada. Primeiro ofendeu, depois se desculpou. Havia bebido umas e coisa e tal, esquecendo do favor solicitado.

Eu, bobo, segui adiante, passei lhe o telegrama, mesmo magoado pela afronta.

De longe, estranhei tanto carro. Chegando em frente, me pus a observar o alvoroço. Dos fundos, ouvia-se conversa, pessoas se esgoelavam:

– Truco, seu fechado.
– Toma seis, que três é pouco.
– Caia papudo.
– Próxima, próxima.
– Ruim no jogo deste jeito, hoje estou para o amor.

Sob a sombra generosa da figueira, o toldo colorido. Sob a proteção de pano estampado, uma moça perfilada, de jaleco branco, mexendo a manivela. Um porco espetado girava sobre a brasa.

Reconheci alguns pela fala, mas a moça de avental era certamente estranha. Foi contratada para o evento, só pode. Parecia uma boneca robotizada, executando trabalho autômato.

Apesar do ambiente festivo, senti indisposição no ar. Um sujeito reclamou:

– Sai ou não sai este almoço, estou morrendo de fome.

Alguém oferece alternativa para saciar o faminto:

– A maionese está pronta.

Outra pessoa incentiva:

– Pão, faça um aperitivo de pão com maionese.

Mas ao que parece, para a dona da casa, o sujeito nada merecia:

– Está com pressa ajude, ou vá se lavar, cortar este bigode imundo.

Crianças também gritavam. Do que dava para ver, silenciosos só o cachorro salivando, e a garota já citada.

Procurei botão de campainha não encontrei, decidi aguardar a reação do cachorro. Cobiçava a comida rodando na cadência vagarosa da moça apreensiva. Por que será está tão séria? Uma coisa eu percebi, quando o cidadão lançou hipótese sobre os bons ventos do amor, ela se fechou mais ainda, virando o rosto sutilmente. Daí eu concluí: cara, você está é ferrado em tudo.

Cachorro indolente. Perdeu o instinto na nova casa?

Mexi o ferrolho do portão. O leve esfregar do ferro contra o ferro e o cão veio queimando. Se jogou raivoso contra a grade. Levei um susto, mas valeu, ganhei um sorriso generoso da garota aborrecida. Quem será brigou com ela?

Alertado pelo latido, a criatura apareceu falando sério:

– Devia ter avisado, para eu esconder a carne.
– Não vim disputar banquete, só atender pedido seu.
– Bom, se é da convocação já estou sabendo, a festa está rolando por conta disso.

Enquanto abria o envelope, o cão voltou a contemplar o porco giratório, de boca aberta.

Exceto o cachorro, a moça e a criatura, ninguém mais deu por mim naquela chácara.

A esposa da criatura, depois que destratou o tal bigodudo, também cobrou urgência:

– Vamos apurar com a leitoa, colocando mais carvão no brasido.

Recebeu troco na hora:

– Espera ou come cru!

A nomeação da criatura já era dada como certa fazia tempo, daí a providência antecipada, morar perto do futuro trabalho. Mas ao que parece, o telegrama fazia falta. Leu e releu, conferiu numeração, guardou o papel no bolso. Então se abriu feliz da vida, fazendo gesto de me abraçar, e penso que se não fosse a cerca, eu teria mesmo lhe dado um empurrão.

Finalmente se desculpou, pondo a culpa dos maus modos na cachaça, complementando:

– O momento é de alegria, não há razão pra cara feia.

Assim, a criatura se juntou na felicidade do porco. Sim, havia um porco vivo, preso numa peia, amarrado ao tronco de uma goiabeira. A moça, o porco vivo e o porco assando, lembravam uma cena colorizada do filme O Sétimo Selo. Com a folga na corda, o porco amarrado nem se dava conta de que era um prisioneiro. Emitia um grunhido satisfeito, sugando migalhas de goiaba apodrecida espalhadas pelo chão.

Antes de partir, dei um adeus para a moça trabalhando. Abriu novo sorriso, lindo.

Então falei baixinho:

– Viva a alegria do porco.

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Fonte da Imagem: O Sétimo Selo

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