O Chuchu Salvando o Tédio

Uma pequena satisfação destes longos dias de isolamento, é colher chuchu.

Lá fora o Covid segue fazendo vítima, aqui do outro lado da cerca, vou em busca da comida.

É preciso explicação, para espantar mal entendido. O deleite é motivado unicamente pelo instinto primitivo da incerteza. Apesar da doença brava alojada no mundo inteiro, não tem faltado alimento na praça.

Apoio a escada na ramagem densa entrelaçando o limoeiro. Sinto o prazer dos ancestrais diante da incerteza camuflada no meio de tanta folha. Inspeciono com cuidado, o limoeiro asfixiado está armado para a vingança com seus espinhos pontiagudos. Apalpo devagar, cato mais um:

– Com este já são quantos?

– Oito, e olhe outro ali.

– Vi daqui.

Chuchuzeiro generoso, dá fruto e dá enredo. O isolamento forçado me priva de experiências além do muro. Aguarde, semana que vem tem mais história de chuchu.

A nova safra avança, rende produção atrás da outra. Vou retirando os da vez, escalando aqueles que ainda estão crescendo:

– Este aqui fica para a próxima, está quase no ponto. Aquele e aquele outro, só daqui a quinze dias.

Trabalho em equipe rende, desço conferindo o resultado:

– Ó o tamanho da colheita.

Agora é dividir com os de sempre.

– Tem certeza que não sobrou nenhum maduro?

– Se tivesse teria visto.

Sei que não é verdade, sempre escapa algum. Rastreando cada palmo lá de cima, a esposa aqui embaixo também identificando corpos ocultos com a vareta de bambu, dá a falsa ilusão de ter sondado tudo, mas que nada, noutro dia aparece um grandão na frente dos nossos olhos.

Quando isso acontece, numa mistura de euforia e frustação, apanho o fruto que finalmente resolveu se revelar.

 

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Fonte da Imagem: Acervo pessoal de Florentino Fagundes

 

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