O Conselho

O veterano esclarecia e o novato ouvia tudo. Eu também.

Se acha errado diga logo, porque vou me defender. Não querem que eu escute? Vão falar longe de mim. E digo mais, o que entrar nos meus ouvidos, vou contar para todo mundo.

Havia segredos a revelar. Segredo partilhado em lugar público?

Segredo coisa nenhuma, era tática malandra, uma quase propaganda de si mesmo.

Ao juízo do veterano, o turista era gente boa na essência, a gorjeta generosa no entanto tinha sido fisgada somente no último instante. Eu testemunhei a encenação toda durante o despacho da bagagem, ele criando dificuldades e propondo facilidade.

Por último, a má notícia: o valor não seria dividido com quem ainda cumpria estágio probatório.

– Você vai ter muita chance quando for efetivado.

– Todo mundo dá gorjeta?

– Quem dera, são poucos que têm bom coração. A maioria é sovina mesmo.

Balançou a nota graúda:

– Alma boa como essa é a exceção da exceção. Ainda assim compensa, daí vem dez por cento do salário, trabalhando direitinho.

Até não dividir a quantia pareceu razoável, mas daí a esfregar a nota na cara do outro, vai enorme diferença. Você sabe, dinheiro vivo enfeitiça inclusive quem não é ganancioso. Observei com o canto do olho, o outro fechou a cara com a péssima notícia. Quem fez bobagem percebeu:

– Está chateado porque não vou repartir com você?

– Não deveria estar? Se somos uma equipe, o certo seria dividir meio a meio. Sei que estou em suas mãos nestes dias, ainda assim …

– Espere, vou atender uma ligação particular, já volto.

Eu não disse? Quando querem esconder assunto, se afastam da gente.

Bem na hora, uma aeronave enorme se aproximava. Fez uma curva à direita, embicou no portão, encostou no tubo. De onde será chegou este bitelão? Se fosse ônibus daria para saber pelo letreiro na frente, mas é avião. Para mais de trezentos passageiros.

Aproveitando que o outro se afastou com o celular grudado na orelha, o relegado fez pergunta:

– Você viu?

Tirando os olhos da aeronave, vi um jovem desolado. Havia raiva naquele olhar, fel naquela boca espumando ódio:

– Você acredita? Aquele panaca não vai dividir a gorjeta que ganhamos juntos! Devo ou não partir a cara dele?

A angústia daquela dúvida me trouxe desconforto. Em todo caso, conselho pedido, conselho será dado.

Engoli ar, articulei uma resposta caprichada. Conhecimento valia tanto quanto o dinheiro, e se fosse depender dos clientes bondosos passaria fome, eram os maus que pagavam o grosso do salário, noventa por cento da renda, segundo relatou o filho da mãe egoísta e maldoso. Ainda assim, caberia a ele decidir se valeria a pena quebrar lhe a fuça do sujeito.

Os pulmões inflados me ativaram a prudência, então optei por algo mais assertivo:

– Não gaste energia em violência que vai lhe custar o futuro.

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Fonte da Imagem

Airbus Avião Jato – Foto gratuita no Pixabay

 

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9 comments on “O Conselho

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