O Faz Tudo

Vou confessar um defeito. Não tenho inclinação para reparos domésticos, tipo ajustar porta emperrada ou vedar torneira pingando. Ferramenta eu tenho, estojo grande que se abre em outro, e depois revela outro, tudo apinhado de chave. Recebi a caixa de aniversário, comentei:

– Não precisava …

E não precisava mesmo, o que sempre faltou era a tal disposição.

Ao ser cobrado, solto a promessa vaga: quando der eu faço.

Por sorte, tenho gente de confiança para tocar a manutenção. Ajuste no aquecedor, limpeza da caixa d’água, até troca de lâmpada que também demanda tempo. É o famoso Faz Tudo. Aliás, ocorre-me agora um belo nome para a dupla que formamos: o Faz Tudo e Faz Nada. Só lhe digo mais uma coisa: não darei indicação porque o homem não vence atender a clientela que tem.

Certa vez, uma porta de correr deu defeito, não trancava. O fabricante tirou o corpo fora, debitou a falha na conta de suposta instalação mal feita. A solução, quebrar tudo e pôr de volta. Quem você acha que resolveu o problema com astúcia improvisada?

Não escolhe serviço. Desde roçar o mato, assentar pavimento, pintura, até a fiação elétrica. Tenho um servicinho, assim assim, consegue fazer? Deixe comigo o servicinho. Convém lembrar o Faz Tudo quando puxa o caderninho: só não vá me esfolar muito, a situação está difícil para todo mundo. Mais comodidade: ele mesmo se encarrega de comprar o material, outra dor de cabeça a menos.

Tem um defeito, é teimoso que nem mula. Preciso ficar em cima, senão limpa a calha sem proteção nenhuma. Já o flagrei tamborilando os dedos contra a sandália ao ritmo do rec, rec do serrote e o balançar frenético da escada em ressonância, ao finalizar o acabamento do beiral lá nas alturas.

Rigor de prazo não é com ele. Numa emergência, um cano estourado, vem correndo, fora isso, é preciso aguardar sentado.

Vou lhe contar a última:

– Seu Faz Tudo, umas abelhas resolveram se instalar embaixo do telhado, conhece alguém especializado para retirar elas daqui?

– Deixe a colmeia por minha conta, sou do ramo, fiz curso e estou preparado.

Vestimenta de apiário é para os fracos, o Faz Tudo amassou umas folhas de capim desses de fazer chá que tenho uma touceira, esfregou nos braços e no rosto. Aquilo tem felpas alérgicas e corta como navalha. Surpreso, perguntei:

– Não dá coceira?

Inspecionou o enxame de cara limpa. Desconfio que passou algum repelente poderoso, não é possível que o cheiro de uma simples erva espante inseto tão feroz. Sim, de repente pareceu que as abelhas evitavam o corpo dele.

Apelei uma vez mais para ter piedade do meu bolso:

– Não me esfole muito desta vez, além do mel saboroso, da cera da melhor qualidade, está levando as operárias, a rainha e o zangão para valorizar ainda mais as suas terras.

Se fez de surdo, mudando o assunto:

– Vamos aproveitar e trocar este porcelanato quebrado?

Não tinha visto aquela trinca. Mas teria que gastar um dinheirão substituindo tudo. Você sabe, cerâmica é assim, sai de linha toda hora.

Senti um leve desafio na sondagem:

– O senhor que é da matemática deve ser rápido para fazer cálculos de cabeça.

– Pior que não.

– Não é isso que fazem o pessoal da matemática?

No meu caso, prefiro desenvolver raciocínio, utilizando a álgebra, a geometria ou simples abstração, delegando as contas numéricas para o computador ou estagiários. Isto tudo eu pensei mas não falei. Só verbalizei a frase dúbia:

– Sempre que posso, fujo das contas.

– E se o senhor trocar só este pedaço de 2,6 por 1,5, que dá uma área de 4 metros?

Assimilei a provocação:

– Seu Faz Tudo, 2,6 metros vezes 1,5 metro é igual 1,3 vezes 3 que dá 3,9 metros quadrados.

– Cheguei nos quatro arredondando.

– Seu Faz Tudo, sempre me esfolando.

 

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Fonte da Imagem

Richard Dean Anderson – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

 

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