O Furo

O Furo

 

No século passado, aprendi que a matéria expande, quando a temperatura aumenta. Tal fenômeno tinha nome: expansão térmica.

O professor seguiu classificando o assunto em dilatação linear, superficial e volumétrica. E mais, havia sensibilidades diferentes, cada material se comportava de um jeito.

– Entenderam?

– Sim, este assunto está moleza.

– Bem mais fácil que a Dinâmica.

– Não carece de seno e cosseno, mais tranquilo que a Estática.

– Aprenderam mesmo?

Lançou a questão. O que aconteceria com um furo circular numa chapa de aço quando aquecida. O diâmetro esticaria ou encolheria?

Cem por cento de erro – e revolta envergonhada.

Como? Então o metal no forno não espicha para todos os lados?

Humilhante errar daquele jeito, escancarando lacuna na aprendizagem.

O importante, consolou o professor, é que tínhamos errado na hora certa, assim nunca mais esqueceríamos, principalmente no vestibular.

Diante do coro de incrédulos, nos convidou a imaginar não só a chapa levada à estufa, mas também a porção retirada dela:

– Que tal o disco, aumenta ou diminui?

– Imaginando a roda inchada, fica barbada supor o futuro do buraco.

Aprendi mais naquele dia. Aos olhos da Ciência, havia uma diferença abissal entre furo e buraco, e alguém afetuoso também pode se mostrar intempestivo.

O rapaz nem graduado era, ainda um acadêmico de Engenharia Mecânica, mas já sabia diferenciar os orifícios. Rosto branco como o leite, ficou vermelho que nem sangue:

– Furo é produzido com precisão, buraco é coisa arrombada de qualquer jeito.

Enraivecido, deu exemplos de buraco, mas vamos deixar de lado, este conto é sobre furo.

O problema do furo na chapa aquecida é clássico, aparece em praticamente todo texto de Termodinâmica.

Anos depois, já no século XXI, eu frequentei um curso. Na apresentação do palestrante, choveu superlativo. Membro titular da mais importante universidade do mundo, mais renomado pesquisador da atualidade, maior físico contemporâneo, e por aí foi.

Lá pelas tantas, vem a pergunta surrada que errei no fim da infância: o furo na placa quente aumenta ou diminui.

Desta vez arrebentamos, só tem cobra na plateia. Não só isso, agora com tanto recurso, o catedrático nem requisitou imaginação de ninguém, mostrou imagem. Bonequinhos representando átomos, coladinhos no frio, afastados no calor.

Palestra motivacional, a física entrou de pretexto para explorar recurso didático, um novo aplicativo. Homem carismático, para favorecer o pessoal das Humanas, abusou do apelo visual, exibiu a resposta logo abaixo da pergunta.

Antes do colega ao lado cravar a opção errada via celular, tentei convencê-lo a mudar a resposta. Veja, insisti, está tudo desenhado lá na projeção. Olhe a figura do furo inicial adornada por bonequinhos tremendo de frio juntinhos, noutro quadro, afastados pelo aumento de energia, expandindo o círculo vazado.

Ignorou meu aviso, depois de ver o gabarito escrito em bom inglês, e o gráfico do fiasco coletivo, aderiu ao coro dos revoltados, esbravejando:

– Pegadinha não vale!

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Fonte da Imagem:

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