O Tocador

Éramos em bastante, mas se deixasse, só o fominha do Lindolfo tocava. Eu então, por ser baixinho e pouco astuto, era escanteado para outras serventias. Para um bom tocador, faltava-me agilidade e estatura, alegavam.

A gente partia com trajeto definido, não convinha abusar da sorte, repetir interfone estava fora de questão.

Nosso estranho prazer depois de tocar, era ouvir os impropérios dos moradores, ameaçando e disparando nome feio:

– Dê as caras se for homem, lazarento.
– Enfie esta corneta amaldiçoada no rabo da tua mãe.
– Passe aqui em frente de novo e vai sair esfolado, se escapar vivo da surra.

Erravam, no gênero e quantidade. Atuávamos em bando, entre nós tinha menina. E voltar machucado para a casa, não era intenção de ninguém.

Então o bloco da retaguarda entrava em cena, apontando dissimuladamente o lado oposto em que Lindolfo se enveredava ventando seu jaleco:

– Foi correndo para lá.

Os raivosos agradeciam se desculpando dos palavrões, o alvo da briga era quem não prestava. Como poderiam imaginar que criaturas tão pequenas fossem capazes de tamanha fraude?

Delicioso o prazer de transgredir, grande a satisfação de irritar adulto indefeso.

Risco baixo, precauções eram tomadas. Sentinelas seguiam na frente estudando o terreno, alertando o grupo do meio dos perigos por meio de silenciosos gestos codificados. Se um velho ou velha estivessem de tocaia aguardando reincidência, os tocadores propriamente ditos se convertiam em crianças amáveis, mantendo distância prudente:

– Bom dia senhora, vai passar um café com toda esta água quente?
– Aguardando algum ladrão senhor, com este porrete enorme na mão?

Uma vez fui pego em flagrante, que descuido, não chequei atrás do arbusto. Justo na propriedade do homem que havia nos jurado de morte, enlouquecido pela ensurdecedora trombeta irritante do Lindolfo. Quando eu ia dar no pé, surgiu exibindo a ferramenta de poda:

– O que quer menino?
– Não quero nada não.

Corri assustado da tesoura em forma de xis, abertona, parecendo uma cruz.
Foi uma mancada e tanto, na condição de patrulheiro, não deveria se expor, muito menos naquele endereço. Uma lição eu aprendi: quem faz coisa errada tem que ser mais cuidadoso. Da bronca, me defendi:

– Nunca deixam eu tocar o trombone.

A equipe que vinha atrás ouviu a conversa e decidiu me inocentar: “quem era?” “Só um pedinte, mas nada pediu, coitado. Correu do meu cutelo afiado.”

Havia um pacto entre nós: jamais revelar estripulia. Apanhado em delito, tinha que se virar dando desculpa. Justificativa que me faltou na presença do cidadão em seu jardim, mas como se configurou que fugi da tesoura e não da travessura de tocar a campainha, além de que a própria vítima tratou de me inocentar, fui então devidamente perdoado. Por alguma razão, exceto nosso líder, todos apoiaram a minha atitude.

Depois de grande, cada um seguiu seu rumo, até que dia destes cruzei por acaso com o Lindolfo. Homem feito, cabelos branqueando. Cadê o avental que escondia a velha buzina? Trocamos palavras rapidamente, cada um alegando a própria pressa. Não contou nem foi preciso, descobri o que fazia pelo uniforme dos Correios. Havia portanto campainhas a tocar.

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Fonte da Imagem
https://pixabay.com/pt/photos/euphonium-instrumento-de-bronze-93865/

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