Rigor ou Bom Jeitinho?

Minha primeira experiência em território italiano aconteceu de improviso. Por acaso também não foi, alguém mexeu intencionalmente no plano original.

Deveria ser apenas conexão, apertada, tipo descer de um avião e embarcar no outro, com os passageiros afivelados.

O bom é que fujo do povo enrolado atrapalhando o corredor, pensei. Por outro lado, qualquer imprevisto em terra ou vento contra no ar, e adeus embarque. E se acontecer um contratempo?

Por razões que eu desconheço, a operadora me acomodou noutro voo, cheguei de manhã cedo. A sequência da viagem, somente a noite. Ficar no aeroporto o dia inteiro? Vou conhecer a cidade.

O italiano do guichê sugeriu a passagem mais barata. Argumentou e indagou gesticulando:

– Depois de umas paradas no caminho, vai chegar do mesmo jeito na estação central, economizando dinheiro. A não ser que seja rico. Neste caso…

Baixando a voz, revelou que havia luxo disponível, para quem estivesse disposto a pagar pelo serviço:

– Se for ricco, indico um transporte exclusivo, carro moderno, ar condicionado, atendimento extra ao gosto do freguês. Vai se sentir um verdadeiro imperador.

Cheguei na plataforma, o trem também. Que rápido. Estou começando a gostar. Quem disse que o mundo latino é bagunçado? Belo trem, imagine o tal expresso.

Descobri o engano do pior jeito. Apresentei o tíquete pomposamente, o fiscal apontou para o nome grafado no papel, diferente daquele estampado na cabine do vagão.

– Este treno é vip!

Por menos que isso prendem pessoas em países desenvolvidos, ponderei. Na melhor das hipóteses, lá se vai um maço de liras, em multa ou suborno.

Com a carteira na mão, disposto a pagar o preço diferenciado, mostrei a razão do engano, o número da plataforma cravado a tinta de caneta no bilhete.

Sei que confiar no bom senso é arriscado, cada vivente traz consigo a própria métrica que varia ainda ao sabor da ocasião. Permitir ao agente público assumir múltiplas funções é perigoso, mas a veneração excessiva da lei impessoal e fria também gera dano.

Então a experiência me deixou numa encruzilhada reflexiva, confuso no que devo acreditar. Certezas se dissolveram, o culto ao rigor de algumas culturas foi à lona. Dúvidas ocuparam o espaço de antigas convicções.

Devo preferir veredito ao sabor das emoções, por vezes falha e pouco confiável? Ou na frieza insensível daqueles que seguem estritamente a letra morta da regra, incapazes de considerar nuances de boa-fé num ato humano?

O fiscal, já quase um velho, permanecia em pé na minha frente. E agora, o que será de mim? Queira Deus que não me ferre tanto.

Parecia assustador, mas ao que tudo indica, refletia. Compreendeu a situação, dispensando inclusive o uso do talão de multa que decerto trazia no bolso do paletó. Lembro exatamente o que disse:

– Palermos, sempre errando.

Sequer cobrou a passagem, ainda foi simpático.

– Vai con dio brasiliano e volte conosco quando for pegar o dilaério!

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Fonte da Imagem

foto comédia italiana – Bing images

 

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