Segredos do Lugar

Depois de algum tempo aguardando o dono da loja, um caminhão despontou na curva da estrada. Lerdo que só. Impaciente, ponderei: pelo jeito, este caco chega e não chega o proprietário da espelunca.

Entenda, a crueldade de um juízo anônimo, nem sempre espelha a realidade. A loja era ajeitada, e no momento, desconhecia a condição falimentar do caminhão. Em todo caso, dito e feito. Demorou entrar na cidade, e nada do homem aparecer.

Foi assim que tudo começou. Seguia viagem tranquilamente, um acessório pifou. Nada grave, ainda assim baixou uma vontade irracional de trocar a peça, martelando a cabeça: problema é problema, vou porque vou consertar este defeito. No primeiro atalho, deixei a rodovia.

Por uma sorte acidental, bem na frente, a casa de acessórios. Grande assim em lugar pequeno? Será que tem tanta demanda assim na região?

O atendente atrás do balcão, de pouca conversa, declarou:

– Não sou vendedor.

Nem soube explicar se havia o produto, e por inspeção visual nada descobri, prateleiras lacradas. Estranho, não querem mostrar o estoque? Se o patrão iria demorar? Respondeu atravessado:

– Vou saber!

Cadê os bons modos da boa gente do interior?

Cogitei seguir adiante, mas a teima persistiu: vou aguardar. E era isto que eu fazia quando avistei o caminhão.

Vendo de perto, velho. Velho e completamente acabado. Motor rateando, lataria rangendo, pneu estropiado. Confirmei depois, estofamento puído.

Deu uma volta completa na praça na mesma lerdeza que veio, mas agora ao fazer a curva fechada, parecia correr bastante, a velocidade quase não permitiu vencer a esquina da praça retangular.

Enfim parou e o motorista desceu, se justificando pela volta extra:

– Este freio só funciona por milagre e quando quer. Preciso que sobre um dinheiro urgente pra consertar o quanto antes.

Por que será chegou se explicando?

Bradou para alguém lá dentro do galpão:

– Vamos descer a tralha de uma vez.
– Vai tomar sua ceva.

Vi a carga sendo descarregada, estranhei: caramba, o que tem a ver isto com o ramo automotivo?

O atendente entediado carimbou a nota estendida pelo motorista que apanhou de volta e se afastou.

Querendo agradar, piorei a situação:

– Isto que é bom em lugar pequeno, dá para confiar nas pessoas, não precisa conferir item por item.
– Isto é da tua conta?
– Comentei por comentar.
– Cuidado, nestas bandas quem se mete se complica.

Por que tanta rispidez assim?

Não levei a sério o alerta do rapaz, segui o motorista. Será que eu descubro alguma coisa? Certamente, chegou falando sem eu ter perguntado nada, imagine dando uma incentivada.

Engolia a cerveja como se estivesse com muita sede. Puxei conversa:

– De onde vem o frete?
– Vem de onde estava, até quando não sei, estou saindo fora, isto não dá futuro. Confira por si mesmo a situação da sucata.

Enxugou a garrafa, subiu no caminhão. Vai dirigir de cara cheia?

Para disfarçar, também pedi bebida. A garçonete comentou debochando:

– Não dá futuro! Esta ladainha de penúria só engana quem desconhece a sujeira dos impunes.

Enchendo o copo, seguiu atacando:

– Cala-te boca, quem acoberta o desmando dos grandões está chegando.

O cidadão, portando chapéu de palha com inscrição estranha, se apresentou. Sem meias palavras, disse a que veio:

– Seja o que for que lhe traz aqui, é de meu interesse saber. Só não venha dizer que está passeando.

Expliquei o incidente, esclarecendo a presença em seus domínios, propondo solução:

–Se este for o seu desejo, tomo o rumo agora mesmo.

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Fonte da Imagem
https://pixabay.com/pt/photos/homem-retrato-chap%C3%A9u-de-palha-3381643/

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