Tempos Difíceis

Foi minha primeira crise, por isso lembro dela tão bem. Depois vieram outras, de modo que a memória se perde na sucessão de toda espécie de transtorno, uns mais graves outros menos.

Na época, até por falta de parâmetro, a situação parecia mais penosa que de fato foi. Aprendi com o tempo, a gente sempre comete o terrível engano de exagerar no julgamento dos problemas da hora. Deveria ser o caso do povo dizer: tudo bem, no sumiço do açúcar, vamos seguir a vida consumindo coisa salgada. Mas não, de repente, seria impossível viver sem adoçar o café.

Na verdade, o que despareceu completamente da praça foi o açúcar cristal e o refinado, dando vez ao açúcar mascavo.

Naquele tempo havia uma divisão rígida em relação ao consumo de açúcar. Para os ricos, o refinado. O nome dizia tudo, refinado significava chique e diferenciado. Pó branco como a neve, moído que nem maisena. Os remediados contavam com o açúcar cristal, formado por grânulos branco, levemente amarelado. Aos pobres sobrava o refugo, a borra do processo, cor de sujeira, escuro como a terra. Ainda por cima, nome feio e pejorativo: mascavo.

A escassez quebrou a hierarquia do consumo, até mesmo o rico passou a disputar o mascavo desprezado.

O cidadão de bolso quente desceu do Gordini, farejando açúcar no armazém. O dono confirmou:

– Acabou de chegar. Pouco mas chegou, é melhor aproveitar.

– Qual deles?

– O mascavo e olha lá.

Exigente, conferiu a mercadoria, abrindo uma saca. Viu o que não queria:

– Santo Deus, o que é isto? Uma corda imunda no meio do produto!

Quis checar outra saca, o negociante barrou:

– O que que tem? Só um barbante, limpinho, sobra da costura. Se quer levar, leva a que abriu.

O cidadão que era gordo, arrematou o estoque todo. O Gordini saiu com o molejo vergado pelo peso, deixando para os outros a opção do nada.

 

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Fonte da imagem

foto de tempos difíceis – Bing images

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