Vergílio

Conheci Vergílio de vista, na Inauguração. Na época, pincelei o excêntrico coberto de couro, capturado pela própria lente ocular, quando a primeira dama se interessou pelas roupas que vestia.

Hoje, avanço além da aparência, me valendo porém da percepção de terceiros.
Josina quem deu detalhes.

Hoje é modo de dizer, o que vai narrado ficou pronto antes do governador galgar o palco naquele dia. Eis o motivo da demora: será que vão acreditar? Quem teve acesso ao material, sinalizou: do jeito que está não, mas se der uma melhorada, acreditarão, você não leu Harry Potter? Pena que não sou a talentosa Rowling, Vergílio é um ser completamente incomum, mas é gente de verdade, testemunhei sua existência real com meus próprios olhos. Portanto, não mudarei uma vírgula sequer.

Meu interesse começou na declaração áspera da mulher que se identificou pelo nome de Josina: “mentiroso deslavado”. Acreditando que depreciava o vereador reivindicando seu quinhão de paternidade na benfeitoria finalizada, nem olhei. Político fazendo política, qual a novidade? Seguiu atacando a mentira, contestando palavras ditas, então descobri, ao juízo dela, Vergílio trapaceou e deu pinote.

Tão logo capturou minha atenção, pareceu mudar de opinião sobre as vestes peculiares do sujeito. Reforçou minha impressão ao dizer:
– Você precisa saber, por onde ele anda e pelo que faz, só mesmo o couro para aguentar o batente.

Não cheguei a dizer nada, que bom, mas pensei: ainda há pouco era farsante, agora o ambiente determina o que se deve vestir. Mas claro! Ainda bem que o cérebro trabalhou em vez da língua. Atacou a origem do insumo, não o produto pronto.

O intempestivo enquadramento de Vergílio na condição de farsante se deu quando ele fugiu, após ter prometido aguardar a esposa do governador cumprir formalidades. Tinha segredos a proteger, atacou Josina indignada.
Daí que também eu, quis desvendar o mistério do bizarro.

Morava numa caverna, mas o placar da anormalidade não se limitava a couro e gruta.

Tinha o garimpo por ofício. Insistia na lida movido pela fé no grande veio que um dia haveria de encontrar. Uma faísca aqui e ali aparecia de vez em quando, fagulha que Vergílio tratava de exibir todo orgulhoso, acondicionada em folha de mato. E eram estas fagulhas que o impelia a seguir adiante na busca de melhores resultados.

Uns viam na pobreza aparente uma estratégia dissimulada para espantar a concorrência, outros enxergavam apenas teimosia desmedida de quem morava num buraco sem janela nem conforto.

Fiquei particularmente interessado em saber de onde tirava o sustento, se a lavra rendia quase nada.

Para se manter, o pouco é suficiente. A natureza lhe fornecia tudo, comida e proteção. A carne vinha da caça, o doce, do mel ou das frutas. Parecia índio quanto ao modo de viver, mas não tinha parentesco com tribo nenhuma.

Esporadicamente, o ouro aparecia, incrementando a dieta de Vergílio com produto industrial.

Barba tinha, navalha não. O cabelo também crescia, exigindo cuidado. Vaidoso, todo pelo era podado no tição. Estranhei:

– Ponha fogo na cara? Que perigo incendiar a cabeça.
Josina rebateu:
– Não é bobo, trabalha dentro da água.

Baixou a voz: circulava boatos que Vergílio acumulava ouro, em lugar bem escondido. Solapava a terra para extrair o ouro para em seguida enterrar novamente. Seguiu sussurrando e fazendo gesto:

– Nunca vi, mas quem sabe dá certeza, ele desenterra daqui para enterrar ali.

Quis saber a opinião de Josina sobre mais este rumor estranho. Não seria delírio do povo? Eis a resposta:

– Se pouco encontra ou tudo esconde dá na mesma, de que serve a riqueza que não circula?

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