Visitantes

O barulho me acordou antes da hora. A noite se diluía numa aurora avermelhada, e o alarido escandaloso desperta a casa inteira.

Meio dormindo, tentei decifrar o ruído:

– O que será tão cedo?

– Seja o que for, gosta de madrugar.

O escarcéu seguiu volumoso, depois que levantei.

Após um tempo, mais lúcido, conclui:

– É passarinho, estão na árvore.

Um se esgoelando mais que outro. É briga ou reinação?

Se estivesse claro, enxergaria melhor.

De que espécie não faço ideia, nunca antes ouvi um grasnar tão espalhafatoso. Uma coisa é certa, cantando não estão. Que garganta magnífica, deve ser ave de grande porte.

Abri a porta da sacada devagar, saí de mansinho do quarto, cuidando não afugentar os barulhentos. Vejo vulto preto camuflado entre os galhos. Aposto que é um casal, em ritual de acasalamento.

Ao capricho do vento, suave, tufo de folhas mostravam e escondiam os visitantes. Tamanho de galinha, ligeiramente esbeltos. Menos encorpados, mas ganhavam folgado de um frango no comprimento, da cabeça ao rabo, este inclinado para baixo. Exibiam uma barbela avermelhada no pescoço. Estão em processo de cópula, planejando procriar. Outra coisa não é.

Onde será o ninho? Imagine esses dois, morando na redondeza.

Categoricamente, não foi a primeira aparição. Dias atrás, flagrei um deles numa missão solitária, inspecionando o chão em silêncio. Ia ligeiro, de cabeça baixa rastreando alguma coisa por toda a extensão do bosque. Se vai andando é porque de tão pesado, não consegue voar, pensei. Agora, se estão juntos lá em cima, fizeram uso da asa.

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Fonte da Imagem

https://pixabay.com/pt/photos/jacu-ave-grande-p%C3%A1ssaro-selvagem-1200172/

 

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